segunda-feira, 27 de junho de 2022
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Crianças criadas entre tablets e smartphones. Quais perigos elas correm?

Baixo rendimento escolar, dificuldade na concentração, problemas no aprendizado e na socialização, agressividade, prejuízos ao sono e ao desenvolvimento são apenas alguns dos malefícios causados pelo uso excessivo de tablets e smartphones. Consultórios médicos estão cheios de casos de pessoas de todas as idades afetadas por essas ferramentas, situação mais grave quando diagnosticada em crianças e adolescentes.

Ciente desses problemas, a psicóloga e psicopedagoga Isabelle Maria Bourguignon toma todos os cuidados possíveis para impedir que sua filha Maria Bourguignon, de apenas 2 anos e três meses, não tenha seu crescimento afetado pelo poder persuasivo das telas.

“Logo que minha filha nasceu, fui reforçada pelos próprios pediatras para evitar o uso de telas. E fazer isso no dia a dia é muito difícil. Tem horas em que a gente não sabe o que fazer”, reconhece a mãe, que entende do assunto também pelo ramo de atuação.

Maria nasceu em fevereiro de 2020, pouco antes do início do cumprimento do isolamento social e demais medidas impostas para combater a Covid-19. Um mês após o parto, Isabelle voltou a trabalhar no modelo remoto. Depois de terminada a licença maternidade, aumentou as horas trabalhadas para atender nos demais empregos que possui. Isso resultou em menos tempo dedicado exclusivamente à filha.

Por cumprir rigorosamente o isolamento social, não permitia a entrada de outras pessoas em sua casa e também não saía com a filha ou o marido, um professor com quem se reveza nos cuidados com Maria. Cada um nos períodos alheios ao trabalho. Nesse contexto, ficar em casa com um bebê se tornou mais complicado. “Tinha horas em que botar um desenho na TV era a salvação. Levar à risca as orientações e regras era desgastante”.

Retomada a socialização, o impacto. “Pessoas questionam nossas regras, botam desenhos nas telas, chamam para ver vídeo. A gente só não conseguiu fazer totalmente essa programação zero tela porque, como Maria nasceu nesse período, as pessoas queriam vê-la no vídeo. A gente virava o celular como selfie e mostrava, mas afastava. Só isso que quebrou a regra”, recorda.

A ansiedade era natural, tanto para familiares e amigos quanto para a própria Maria, mais uma criança nascida em tempos de distância. De lá para cá, a pequena chegou à idade aconselhável para os primeiros contatos com smartphones, tablets e televisores. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que os primeiros contatos de crianças com essas tecnologias comece somente aos 2 anos de idade, e no máximo por uma hora.

“Sigo daí para baixo e uso em momentos estratégicos, quando algo me impede de dar atenção. Quando nos arrumamos, ela para escola e eu para o trabalho. Abro mão mesmo de tudo para ficar com ela. Quando percebo que ela se entediou de brincar, deixo ver um pouquinho de desenho. Não é nem pelo tédio, porque isso é importante. Ela assiste um pouco, varia a programação, mas desligo e voltamos à brincadeira”, detalha.

Isabelle dá preferência à televisão como entretenimento para a filha. Celulares e tablets são evitados ao máximo para não se tornar um costume, já que são aparelhos acessíveis e costumeiramente dispostos sobre a mesa ou poltrona, por exemplo. “Se tiver o hábito, ela vai pegar. As chamadas de vídeo a gente parou porque não tem muita necessidade. Com desenhos eu cronometro mesmo. Sou muito rigorosa com isso”.

Maria Bourguignon nasceu um mês antes do início do isolamento social, momento decisivo para adoção de regras que não permitissem o precoce e demasiado uso de telas – Foto: Divulgação/Acervo pessoal

À medida que o tempo passa e Maria cresce, as vontades próprias aparecem com mais frequência e, por vezes, se confrontam com as decisões maternas, entre elas a de desligar a TV ou tirar o celular de perto. Entretanto, com jeito, birras não duram muito.

“No início ela respeitava mais [o fim do uso]. Apesar dela não entender ainda, eu falava que era a última música. Ela aprendeu o comando e já sabia que quando eu dizia que ia acabar, que era para ir se preparando para desligar. Isso reduz a ansiedade. Crianças normalmente não reagem bem a interrupções abruptas. Ela resmunga um pouco. Mas não dura dois minutos”.

A percepção de Isabelle é de que, em geral, o comportamento e as queixas de outros pais são parecidas. Quando não há o controle, quando não se usa a tecnologia na hora certa, é quando mais se encontram prejuízos. Como exemplo, ela cita casos de crianças expostas a telas durante à noite, ou por longos períodos de tempo, fatores que acarretam dificuldades para falar e dormir. Se dormem, o sono é agitado.

“Exposição, principalmente à noite, faz o cérebro entender que é para ficar acordado por conta da luz azul da tela. Tem que reduzir o tempo, deixar usar mais cedo. Assim a gente percebe que a sonolência vai sendo induzida. Isso também gera atrasos cognitivos, principalmente na fala”.

Interferência da tecnologia

Para observar como a tecnologia disponibilizada precocemente pode prejudicar o desenvolvimento, Isabelle aponta para a capacidade criativa, minada por horas dedicadas à criação de terceiros, não do próprio bebê.

“Quando uma criança brinca com alguma coisa, um saco plástico, um papel de pão, ela cria funções para aquilo. Ela se entedia e busca outra coisa para brincar. Na televisão não, ela muda de canal. Não tem a janela do criar alguma coisa para fazer. Usar a criatividade, encontrar a solução para o problema. Interfere numa fase do desenvolvimento”, expõe.

Segundo a psicopedagoga, pais e mães de outros bebês percebem algo diferente entre seus filhos e Maria. São comportamentos, interações e reações distintas das crianças de mesma idade e que não vivem sob regras tão rígidas quanto às impostas por Isabelle.

“Ela se mexe e olha o ambiente o tempo inteiro. Ela brinca muito, mas não é agitada, se comunica muito bem para a idade dela. Perto, é preciso cuidado, pois ela absorve mesmo. Pessoas reparam na fala, na comunicação. ‘Nossa, o meu não brinca assim não. Tenho que estar junto’, me contam esses pais quando reparam na fala e na criatividade de Maria. Isso não é uma coisa que eu falo, são as pessoas que dizem.”

Primeiro tablet

Indagada sobre como serão os próximos anos de criação e também se já imagina quando Maria vai ganhar o primeiro smartphone ou tablet, Isabelle é taxativa.

“Tem que deixar o mundo girar um pouco, porque a gente não sabe o dia de amanhã. O tablet não pretendo tão cedo. Provavelmente vou dar um celular para nos comunicarmos, mas também não tão rápido. Crianças gostam de jogo, então posso dar um pouco do meu, ou deixar usar o videogame aqui de casa. Com algo dela mesmo, na mão o tempo todo, vai ser mais difícil controlar esse uso”, finaliza.

Distúrbios

Crescer em meio a aparelhos tão fundamentais para a vida contemporânea não deveria ser um problema. Contudo, o uso precoce desses dispositivos pode desencadear comportamentos que minam um crescimento saudável, provocando os mais variados distúrbios sob o risco de serem levados para uma vida inteira. “A exposição cada vez mais precoce pode gerar um aumento de irritabilidade, desregulação emocional, estresse e até mesmo ansiedade para essas crianças. Dificuldade até mesmo de regulação do ciclo circadiano delas, atrapalhando o sono dentre outras questões da infância”, afirma a doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Fernanda Rosalem Caprini.

Ciclo circadiano

Ciclo circadiano é o nome dado à variação ocorrida nas funções biológicas da maioria dos seres vivos. Essas mudanças acontecem, majoritariamente, sob influência do ambiente em que vivemos – condições de luz e escuridão, temperatura, marés, ventos, etc. No ser humano, afetam corpo e mente, a exemplo da digestão ou do sono. Tudo isso é profundamente alterado com as telas – smartphones, tablets, televisores, videogames, computadores, entre outros aparelhos.

Segundo Fernanda, especialista em psicoterapia infantojuvenil com 10 anos de atuação em Vila Velha, hoje, problemas por conta do mau uso e o uso excessivo desses aparelhos lotam facilmente as salas de espera das clínicas médicas. E muitos são os reflexos na saúde física e psicológica.

“Os maiores prejuízos estão relacionados ao desenvolvimento da linguagem, o desenvolvimento de habilidades sociais e de coordenação motora, psicomotora de uma maneira geral. Alguns estudos falam ainda em prejuízos no aprendizado. Quando a gente fala do uso muito precoces de telas, smartphones, celulares e outros meios, a gente pode pensar num prejuízo geral para essa criança.”

Conteúdo acessado

A qualidade do conteúdo acessado também gera preocupação. A psicoterapeuta informa que muita violência e agressividade estão diretamente ligados ao comportamento infantojuvenil quando a criança ou adolescente passa horas a fio usando tais ferramentas. Pior, há também casos de violência sexual virtual.

“Crianças muito pequenas expostas a conteúdos inadequados, expostas a pessoas, terceiros que fazem dessas crianças vítimas de violência sexual virtual. Hoje, infelizmente, a gente vê que os consultórios estão carregados de problemas por conta do mau uso de telas e também de seu uso excessivo”, explica.

Adultos

Foto: Shutterstock

Longe de ser exclusividade de crianças e adolescentes, os transtornos nascidos ou estimulados pelo uso excessivo de smartphones, tablets e demais ferramentas contemporâneas também afetam pessoas adultas. Estresse, insônia, aumento de irritabilidade, tudo isso está relacionado a altas doses de telas por dia.

Para além disso, homens e mulheres do século XXI podem desenvolver um quadro específico associado a telas: a nomofobia, um medo singular e irracional de ficar sem o celular, ou estar impossibilitado de usá-lo.

“Quando [aparelho] ele descarrega, quando está em um lugar em que não tem área de cobertura, essa pessoa apresenta um quadro específico relacionado ao uso de telas. Então, sim: outras faixas etárias podem ter quadros de saúde associados”, diz Fernanda Caprini.

Como limitar?

Com tantos riscos, cresce a importância de pais e mães tentarem retardar cada vez mais o acesso de seus filhos a tais equipamentos, pelo menos o seu uso prolongado. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é categórica sobre o uso zero de telas, ou seja, smartphones e tablets nos primeiros dois anos de vida. A partir dos 3, 4 e 5 anos, no máximo uma hora diária de exposição a telas de todos os recursos tecnológicos. De 5 a 10 anos, o tempo de uso pode ser ampliado para duas ou três horas, entre 10h e 18h.

Vale destacar que a supervisão de um responsável e a avaliação do conteúdo que está sendo transmitido para as crianças são imprescindíveis, com preferência para o uso em ambientes comuns da casa e pela televisão em vez do celular ou tablet. No caso de adultos, quando a percepção do desregramento – e em pior medida, do vício – deve ser própria, é fundamental que o uso por muito tempo seja justificado apenas por dever de ofício.

Fora das obrigações profissionais é crucial delimitar períodos do dia para o uso recreativo das telas ou, ainda mais benéfico, desligá-las. “Isso facilita para que a gente tenha momentos de diminuição da ansiedade, do estresse, para que a gente aumente o nosso nível de concentração, para que consigamos nos perceber, olhar um pouco mais para nossas emoções, trabalhar a nossa socialização. É importante ter momentos desconectados. Esses momentos precisam fazer parte das nossas rotinas. É olhar para nossas vidas”, conclui Fernanda.

Dicas

  • Definir momentos dentro da rotina para poder usar os recursos tecnológicos 
  • Ir reduzindo e até impossibilitando esse uso durante o dia
  • Desconectar-se, ou seja, não utilizar os aparelhos pelo menos uma hora antes de dormir
  • Substituir a última hora antes do sono noturno por uma leitura de livro (especialmente para crianças e adolescentes), aproveitar momentos em família
  • Adultos devem relaxar, fazer uma boa higiene de sono antes como preparação para dormir
  • Crianças e adolescentes podem ser mais resistentes à limitação do uso dessas ferramentas, tornando difícil o controle dos pais e responsáveis. Isso torna recomendável a procura por ajuda psicológica, terapia
  • Preferir sempre a televisão ou o videogame, sempre controlando o tempo de uso, em detrimento do tablet e de smartphones, por estes aparelhos serem mais fáceis de ter em mãos e também porque costumam ficar dispostos pela casa. Isso evita que crianças criem muito cedo o hábito de pegá-los.
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