quinta-feira, 7 de julho de 2022
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Jacqueline Moraes: a vida servindo antes de ser servida

Perfil: Jacqueline Moraes da Silva, vice-governadora do Espírito Santo

Álvaro José Silva, jornalista

Jacqueline Moraes da Silva, negra, da baixada fluminense, a existência quase toda pobre, muitos anos trabalhando como camelô, casada com Adilson Avelino, que exercia a mesma profissão, hoje é uma advogada. Começou tarde a fazer curso superior depois de parar com os estudos para trabalhar e ajudar nos ganhos da família. Estava na quinta série. Levou dez anos para terminar o curso também com incentivo de professores e hoje conseguiu vencer mais esse desafio na vida. Talvez o maior no campo do conhecimento acadêmico.

Nasceu em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, aos 16 de agosto de 1975, e aos 12 anos veio para o Espírito Santo junto com os pais que buscavam conseguir vida melhor. Tinha que trabalhar e virou camelô para ajudar a sustentar a família vendendo artigos de época, sem se fixar em nada especifico. Conheceu Avelino quando já era mãe solteira, casou-se com ele e tiveram dois filhos. O temporão ainda é bem novinho.

Em suas andanças viu o marido ser vereador, conheceu o governador Renato Casagrande e passaram a ter um relacionamento de amizade e respeito pessoal e político. Depois de seu mandato – posterior ao do marido – iniciado em 2012 pelo PSD, pensou que o “patrono” a apoiaria a ser deputada federal. Levou um susto quando ele disse que a queria vice-governadora, mas aceitou. Era uma escolha pessoal dele. Eleita, passou a ser servida. E a ser fiel ao governo que representa como militante do Partido Socialista Brasileiro, o PSB.

No gabinete de vice do Palácio da Fonte Grande, que fez questão de mostrar já que a entrevista foi dada na Sala de Reuniões, pintou uma parede de cor de rosa. Na outra, atrás da mesa onde se senta, colocou um enorme painel que começou marcando os dias de seu mandato de trás para a frente. Eram mais de 1.400 no começo e ainda faltam pouco mais de 400 antes do término. Dia após dia, mantém post hits com as atividades desenvolvidas no cargo. Vai registrando sua atividade pública. Tudo anotadinho…

A declaração que abre o texto foi feita no início da entrevista, na Sala de Reuniões. A cinegrafista apontava a filmadora, o microfone era entregue a ela e um garçom entrou para oferecer café e água gelada aos que estavam na sala, inclusive assessores. Agradeceu, não aceitou nada, mas esperou pacientemente que o entrevistador terminasse sua bebida antes de começar.  

Ela ainda não abandonou o plano de ser deputada federal. Tão logo acabe seu mandato atual, retoma o projeto inicial com plano de usar o novo cargo para servir ao Estado, como assegura, e sempre com foco nas comunidades das quais veio, como o Bairro Operário. Explica como:

“O dinheiro tem que ser investido todo onde ele é necessário e aqui no Espírito Santo. Em saneamento, saúde, educação e outros. Nada de deixar recursos em Brasília ou utilizar mal”.

Como vereadora assegura que fez o mesmo, sempre atuando voltada para as pessoas que representa.

Eleita com Casagrande, tirou alguns dias para descansar e um belo dia foi ao supermercado com o marido vestida de maneira bem informal. Despojada. Durante o tempo todo acabou sendo seguida por um segurança. Foi aos setores populares, aos de itens mais caros, e o sujeito atrás deles. Perguntou, parou, voltou-se então ao profissional se ele achava que ela iria roubar o estabelecimento. Somente então foi deixada em paz.

Viveu o racismo velado do Brasil durante muitos anos. Na rua, nos elevadores dos prédios de edifícios mais ricos, em todos os lugares. Agora, no seu dia a dia convive com situações difíceis de serem imaginadas no passado como, por exemplo, quando desce para comer uma cocada de um camelô que foi seu colega no trabalho antigo.

“Quer cocada, Jaque?” Ela diz que sim. E os dois se tratam da mesma forma como sempre se trataram.        

Dirigiu a Associação dos Vendedores Ambulantes do Espirito Santo e o Movimento das Mulheres de Cariacica/ES, além da Associação dos Moradores do Bairro Operário. Ganhou com isso ossatura para escalar postos políticos. Com projetos claros, tomou a decisão difícil, dura até, de apoiar Saulo Andreon e não seu próprio marido na última eleição municipal. Questão de identidade programática. Saulo é do PSB e tem vínculo com Euclério Sampaio, que ela apoia e admira por seu trabalho, apesar de ter iniciado o mandato de vereadora ainda durante a gestão anterior, de Juninho (Cidadania) que, a seu ver, perdeu um pouco o rumo no final do mandato.

Nunca teve dúvidas em apoiar quem considerava a melhor opção. Fez isso com Aloísio Santos e com o filho deste, Marcelo. Para ela, “fidelidade é coisa da qual não se abre mão”. Em nenhum dos aspectos da sua vida.

Recentemente passou por um momento de grande aflição. Um vereador de Vitória, Gilvan da Federal, bolsonarista de carteirinha, disse que ela era dona de fazendas no Estado. De muito dinheiro. Não pensou duas vezes e está processando criminalmente o desafeto gratuito. E nunca teve a menor dúvida de que teria de fazer isso. A primeira audiência vem aí e o juiz já determinou ao caluniador a retirada de todas as postagens que fez com acusações ou insinuações maldosas acerca da atividade dela.

“Tenho vida aberta: tudo o que possuo está declarado no meu Imposto de Renda. Tudo. Não vou deixar que fake news destrua a minha história e de tempo de vida pública. Não vou permitir uma situação como essa. Levei um susto no dia em que li a entrevista do cidadão e não podia fazer outra coisa”.

Para agir com determinação, diz que se baseia em alguns princípios. Quando as coisas vão mal, lembra-se do pai: “você pode chorar ou vender lenços”. Prefere a segunda decisão. Ou então se volta à crença religiosa. É evangélica, mas prefere não citar essa ou aquela confissão como a que exerce. Acredita em Deus e encontra forças na crença para enfrentar seus obstáculos.    

Tem uma visão clara do que foi substituir o governador em seu cargo quando ele precisou se ausentar. Seria a primeira mulher negra, de passado pobre, a exercer o cargo, ainda que por breves dias. Mas fez isso da mesma forma como quando dirigiu as entidades de vendedores ambulantes e de mulheres: com naturalidade. Sabe do que precisava tomar todas as iniciativas durante aquele período. Só que não foi tão fácil assim:

“O governador tem que entrar no Palácio Anchieta pela porta da frente, onde está a guarda. Sair, pode ser por onde quiser, mas entrar, não. É protocolar. Tive que fazer isso, então. E no gabinete do governador sentei-me à mesa pela primeira vez sem ele estar presente. Sozinha. Eu tinha que fazer aquilo com naturalidade, cumprir aquela tarefa e despachar normalmente. Realizei o trabalho até devolver a função a ele”.

Se por um lado enfrentar o racismo às vezes velado do brasileiro foi uma tarefa dura, depois de eleita vice-governadora acabou sendo fácil lidar com a chamada imprensa tradicional. Jacqueline garante que foi sempre um tratamento de respeito, de consideração. Inclusive no episódio do vereador que tentou atingir sua honra, encontrou espaço para contestação, sendo ouvida, considerada, ocupando os espaços que eram necessários.

Transmite a impressão de pessoa segura, agora prestes a completar três anos no segundo cargo mais importante da política do Estado. Move-se para um lado e para o outro com segurança. E diz:

“Quem vem aqui procurar por mim não é impedido de entrar. Isso aconteceu comigo no passado. Disseram na ocasião que eu não tinha agenda e não poderia entrar. Agora todos entram. Posso estar de agenda lotada, mas sempre há uma forma de atender, senão naquele dia, ao menos nos dias seguintes.”

Durante o tempo da entrevista, na sala de reuniões ou no gabinete, mostrando o “lado feminino” que fez montar lá, só foi refratária na hora de aceitar o serviço do garçom. Talvez ser servida continue sendo um problema que ainda vai demorar algum tempo para se tornar banal.

Assista à entrevista na íntegra:

https://www.youtube.com/watch?v=Eup56vLkrkQ

*Em colaboração com o portal Don Oleari

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