O que nos resta

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 O que nos resta

Foto: Reprodução

Eis se ergue o vento!… Há que tentar viver

Paul Valery

De que modo e’ possível falar sobre os limites da inteligência artificial, …falar sobre o limite de algo que é praticamente ilimitado?”, pergunta o filósofo chinês Yuk Hui.

Para alguns autores, a inteligência artificial -IA- irá substituir os humanos em todas as atividades quantificáveis da inteligência humana, avaliações, prospecções e realizações que podem ser medidas e comparadas numericamente. Ações manuais ou intelectuais, repetitivas ou não, cujo aprendizado e execução geram “perfeição”, eficiência e produtividade, reduzem os riscos de acidentes e as perdas materiais, passarão a ser de responsabilidade total deste novo saber virtual.

O que nos resta, no tempo que nos falta?

Liberados do trabalho, desempregados, estaremos prontos para uma apreciação desinteressada dos bens da natureza, desfrutar das artes e dos lugares, gozar dos estímulos carnais e simbólicos, diante e juntos na presença dos outros, amigos e amantes?

Mas estes prazeres serão destinados para todas as pessoas?

Ou no profundo limite, o acesso a este paraíso terrestre, irá separar, na entrada, ricos e pobres, felizes e miseráveis?

Onde, nestes tempos e espaços, se instalara’ o novo, o original, o estranho?

A evolução técnica, política, cultural se faz, “é motivada por rupturas epistemológicas”, vivida intensamente no curso de revoluções científicas, artísticas e sociais, através de ações e ideias, onde os resultados não são antecipados, de antemão, ao percurso do conhecimento. Contingências singulares, acidentes imprevistos, eventos extraordinários, particulares gestos, alteram e inventam novas regras nos processos evolutivos, aproximando contrários, explorando afinidades e correspondências inesperadas.

Estes mecanismos criativos, historicamente, explorados pelas mentes e esforços humanos, hoje despertam alternativas, invenções e tecnologias, que, imaginam alguns, irão transformar radicalmente a vida humana.

Brilhantes cientistas, dedicados pesquisadores, cruzados da civilização e da humanidade, seriam a vanguarda deste projeto, onde  o “ Transumano, …, mais próximo de um ciborgue: meio humano, meio máquina,  poderá surgir da aceleração da evolução, engendrada pela própria racionalidade humana“, escreve José Eustáquio Diniz Alves, gerando um individuo melhorado e aperfeiçoado, “um ser pós-humano  e pós-sapiens:”.

Estes seres híbridos, acoplados às máquinas, não teriam os limites dos corpos e das mentes atuais, e turbinados pela biotecnologia e pela informática, suportados pelos robots e pela IA, poderão aspirar a conquista das estrelas e a imortalidade.

O fim da humanidade como conhecemos?

Experimentando os limiares da ciência e dos saberes, estamos diante de dois caminhos opostos: a concretização do sonho de uma sociedade de homens e mulheres livres da escravidão do trabalho penoso, ou de um paraíso exclusivo, onde os eleitos irão se lançar ao espaço sideral, abandonando, ao desastre, a nossa terra natal.

Nestes conflitos de utopias e distopias, de solidariedades e separações, de muitas perdas e poucos ganhos, estamos jogando, às cegas, o lance dos dados de um jogo desconhecido, onde diante do tempo adiado, o olhar pressente novos derrames de lava, que afloram iluminados e se estabelecem negrumes sobre o solo.

À mercê do medo e da morte, imersos na angústia de dias piores, diante do vazio que alimenta a solidão,

Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira”,  

J.D.Salinger

Kleber Frizzera

24/ setembro/ 2021

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