quinta-feira, 19 de maio de 2022
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Rússia x Ucrânia: internacionalista fala dos impactos econômicos no Brasil

Com o mundo globalizado, raramente um conflito não mexe com a economia de todos os países ou, pelo menos, com sua grande maioria. Na guerra entra a Rússia e a Ucrânia, já na primeira semana que o mundo todo seria afetado.  Segundo o professor do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), Dr. Carlos Henrique Canesin, existe uma relação comercial forte entre Brasil e Rússia, que já enfrenta problemas sérios em função das sanções impostas pelos países que apoiam a Ucrânia.

O Brasil sofrerá impactos nos setores agrícolas e energéticos, que por serem básicos na economia, causarão impactos negativos para os consumidores de forma potencialmente ampla. 

No Espírito Santo, por exemplo, as exportações capixabas para os russos totalizaram US$ 26,02 milhões em 2021, de acordo com informações do Instituto Jones Santos Neves (IJSN). Para a Rússia, os produtos capixabas exportados são pimenta, melancia, gengibre, açafrão,  café, pedra de cantaria ou de construção, melões, entre outros. 

No mesmo ano, o Espírito Santo  importou  o total de US$ 255,9 milhões da Rússia. Em janeiro de 2022, a análise mensal do Instituto identificou que do que foi importado para o Estado, a participação da Rússia foi de 5,74%, já da Ucrânia de 0,01%. 

Na lista de produtos russos que chegam até o Brasil, segundo o IJSN os  mais importados para o Espírito Santo são adubos (fertilizantes), alumínio, ferro, magnésio e hulha.

Em nível nacional, o professor Dr. Carlos Henrique Canesin relatou que apenas em 2021, as exportações brasileiras para o território russo atingiram cerca de USD 1,7 bilhão, concentrando-se em produtos agrícolas como soja, carnes de frango e bovinas, amendoim, café e açúcar. 

No ano passado, o Brasil importou USD 5,6 bilhões da Rússia, dos quais 60% (USD 3,5 bilhões), eram em fertilizantes. Além da dependência de importação de adubos da Rússia, no Brasil é  de extrema importância as importações de energia, como carvão, e petróleo, que juntos representam 16%, e de insumos industriais, como ligas metálicas.

“Os mercados de commodities globais, já estão sofrendo os efeitos do conflito, tendo em vista que a Rússia é um dos maiores fornecedores de petróleo, gás e fertilizantes para o mercado internacional, dessa forma, o impacto sobre a economia brasileira não é apenas direto e derivado da relação Brasil-Rússia, mas também indireto, em consequência da posição russa nos mercados globais”,  afirmou.

O especialista disse que a escalada das sanções à Rússia, pode gerar recordes de preços internacionais de energia e fertilizantes, impactando as cadeias globais de valor e não só o mercado doméstico brasileiro, mas também a competitividade do Brasil nos mercados internacionais.

Combustível e alimentos

No caso dos combustíveis, embora a importação de petróleo responda por apenas 6% do volume total no país, o setor é altamente interdependente com o restante do mundo, segundo Carlos Henrique,  o Brasil exportou cerca de 48% de sua produção, principalmente para a China, com isso, a elevação dos preços internacionais pode trazer grandes impactos sobre os preços e o fornecimento doméstico do insumo, sem a possibilidade de descartar problemas de suprimento do mercado interno devido à elevação do preço e da demanda internacional.

Na questão dos alimentos, Carlos explicou que a Rússia responde em média por aproximadamente 23% das importações de fertilizantes no Brasil, sendo virtualmente o único fornecedor de nitrogenados.

“Considerando que o país é dependente destas importações para um setor agrícola moderno e altamente intensivo em insumos, seguramente teremos um impacto negativo nos preços finais devido à elevação do custo de produção”, comentou.

O internacionalista afirmou que pode acontecer uma pressão inflacionária sobre o setor, em razão da redução da oferta internacional de alimentos e elevação dos preços, tendo em vista que países europeus já começaram a impor bloqueios de exportação de grãos e principalmente de trigo.

“Este efeito negativo deverá perdurar no curto a médio prazo, mesmo a despeito de estratégias para acalmar o problema, como: a diversificação dos fornecedores internacionais e fomento da produção doméstica, já que os preços no mercado internacional foram igualmente afetados e a produção doméstica é de maior custo, exigindo um nível elevado de investimentos para ser viabilizada”, acrescentou.

Como o Brasil pode se prevenir?

Carlos Henrique ressaltou que a posição política adotada pelo Brasil no cenário internacional, aumenta os riscos de potenciais parceiros internacionais fazerem negócios com o país, já que empresas e até o próprio governo, estão sujeitos a enfrentarem uma deterioração de suas credibilidades, estabilidade econômica e solvência em função dos impactos diretos da crise, de forma a elevar o risco de fazerem negócios.

Para Carlos, existe também a chance de que instituições privadas e o governo brasileiro, sejam alvos de sanções ou boicotes privados internacionais em função de eventualmente manterem negócios com a Rússia e Belarus, não aderindo às sanções impostas pela comunidade internacional.

“A curto prazo não tem muito o que ser feito adicionalmente às medidas que vem sendo adotadas, como a diversificação de fornecedores de fertilizantes, incentivo a racionalização e melhor eficiência dos sistemas produtivos agrícolas. No entanto, uma medida prudente seria evitar elevar o risco da reputação do país e de suas empresas, atuando na política internacional de forma mais alinhada à comunidade internacional, em face dos potenciais impactos adversos sobre a nação”, relatou.

O professor da UDF complementou que a nação brasileira precisa aumentar o investimento em pesquisas agrícolas para elevar ainda mais a eficiência dos sistemas produtivos e reduzir a dependência de insumos importados. Os investimentos em infraestrutura e na produção doméstica de insumos também são cruciais para assegurar a segurança alimentar do país no longo prazo.

“No setor de energia, é preciso modernização e políticas públicas efetivas que auxiliem o país a dar passos mais rápidos rumo a uma transição energética, com programas voltados não apenas para diversificação de fontes na geração de energia, mas também em geração distribuída, plantas fotovoltaicas residenciais e eletrificação da frota de automóveis”, finalizo

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