Mundo belo

 Mundo belo

Foto: Reproduçao

Vinicius de Moraes, em seu poema Receita de Mulher, em um tom hoje inadequado, escreveu que as muitas feias que o perdoem, mas beleza é fundamental. Concluiu o poema dizendo que no olhar dos homens: “É preciso, é absolutamente preciso que seja tudo belo e inesperado.”

Feodor Dostoievski, em sua novela ‘O idiota’, colocou a seguinte frase na boca de um dos seus personagens: “A beleza salvará o mundo”, intrigante afirmação que tem levado a várias intepretações.

Se o mundo é produção divina, dizem alguns, ele já contém a beleza e a salvação, predestinada nas escrituras à redenção pelo sacrifício de Cristo, e ofertada a judeus e gregos, que abracem esta fé ou aos homens que se comprometam com as boas e virtuosas obras. Se, ao contrário, o planeta é fruto do acaso cósmico, indiferente aos homens e as suas preferencias, destinado à aniquilação total, poderá ser salvo pela beleza, redimido pelas obras de arte, que resistam ao peso e ao sofrimento das coisas e dos eventos?

A violência, brutal, bárbara, contra as mulheres, que fez do Espírito Santo, líder em feminicídios no Brasil, não pode ser unicamente explicado pelas origens de nossa população imigrante, formada em um entendimento distorcido da natureza humana. A mulher, como pessoa inferior, teria sido destinada a atender os desejos e necessidades masculinas, sexuais e de reprodução da família e da propriedade, vivendo entre a cozinha e o quintal.

A brutalizacao do corpo masculino, exigida ou imposta pela alienação do trabalho manual, no enfrentamento das rudezas da natureza, nas incertezas da produção agrícola, esgotariam as potencias afetivas dos indivíduos?

Mas porque, quando condições econômicas mais favoráveis, a acumulação material, educacional e simbólica se tornou mais frequente, este ódio ancestral, misógino, retorna com toda ferocidade em todos os extratos da sociedade?

Quando as mulheres conseguem ser autônomas, livres da dominação do marido ou companheiro, esta raiva parece crescer e se realizar por uma agressão corporal, que busca impedir radicalmente esta libertação.
Haverá salvação para um mundo e um estado, com estas condições?

A beleza não é uma forma perfeita, uma réplica material de um ideal abstrato, uma harmonia cósmica entre a natureza e o artifício humano, encontrada em algumas obras de arte excepcionais.

A beleza não é um atributo exclusivo da riqueza, dos gênios, dos artistas, usufruto de diletantes em museus, livros ou teatros. Ela faz parte de uma relação amorosa com as coisas do mundo, um desafio em todas as culturas à morte e ao sofrimento.

A falta, a ausência da pessoa amada, o vazio que ocupa o meu corpo, pode se transfigurar, ao contrário da violência, em uma poesia, na beleza que pode salvar o mundo.

Sinto a alma deserta
Um vazio se faz
Em meu peito
E de fato eu sinto
Em meu peito um vazio

Me faltando
As tuas carícias
As noites são longas
E eu sinto mais frio

Cartola

Kleber Frizzera
11.11.2021

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