sexta-feira, 13 de maio de 2022
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O Rei da América: capixaba Camilo Neves

O Rei da América é capixaba. Camillo Neves, pivô do Unicapixaba, além de campeão da Copa Libertadores de Futebol de 7, foi eleito o melhor jogador da competição, disputada no Rio de Janeiro na última semana. Aos 30 anos, o vitoriense faturou a coroa por suas assistências, 10 ao todo, líder absoluto, e ainda marcou 5 gols, figurando entre os artilheiros.

“Foi um título de fato coletivo. As conquistas individuais só premiaram o trabalho que fizemos. Poderia ser qualquer outro. Trabalhei muito e, sem falsa modéstia, sempre fui ligado nisso e conquistei muitos. Nesse campeonato eu não estava focado no pessoal. Quando a gente pensa dessa forma, essas conquistas vêm com mais naturalidade”, afirma o jogador, fazendo questão de dividir os méritos com os companheiros.

Camillo tem razão, afinal. O bicampeonato do Unicapixaba foi conquistado em cima de um dos times mais fortes do País, o Áurea, do Rio de Janeiro, atual campeão brasileiro. Os cariocas, aliás, saíram na frente ao marcar dois gols. Após o intervalo, Guilherme Falcão empatou para os capixabas. Nos shoot-outs foi a vez do goleiro Ciro brilhar, impedindo uma finalização e defendendo outra, enquanto via seus companheiros converterem as três.

“Todos os times eram muito bons. A gente entendeu que não poderia falhar no passo que a gente desse. A equipe foi toda importante. O Ciro, goleiro, o Guilherme Falcão, de 23 anos, o futuro do esporte, além das referências do Bruno e do Rafinha, que tiraram a insegurança dessa garotada”.

A construção

Troféus são uma constante na vida de Camillo. Há 11 anos no futebol de 7 e desde os 21 pela Seleção Brasileira da modalidade, ele acumula duas Copas Américas e Copas Intercontinentais, um Mundialito, Copa do Mundo e Desafio Internacional pela amarelinha. Em matéria de clubes, já passou por Flamengo (o time do coração), Fluminense Coritiba, Santo André-ES, São Cristóvão e Atlético Paranaense.

“As pessoas falam muito que sou pivô à moda antiga, que também serve os companheiros e não só faz gols. Eu tento achar quem está melhor posicionado. Neste campeonato eu também tive muita sorte. Ela acompanhou a gente, e eu tomei as decisões certas no momento certo”, diz o atleta que, entre uma partida e outra, teve de jogar também pela Seleção, aumentando ainda mais o desgaste.

“O torneio exigiu muito da gente, do físico ao psicológico. Quem não estivesse preparado, ia ratear, sentir. Passamos por todas as situações nesse campeonato. Quando achei que já tinha visto de tudo, teve mais coisa por vir. No meio da competição a Seleção Brasileira fez um amistoso com o Uruguai, e eu tive que jogar, Cheguei no hotel uma hora da manhã, antes da semifinal. Eu estava esgotado, mas joguei a semi no outro dia de manhã”.

Para aguentar o pique, a receita foi treinar intensamente. “A gente treina em horários que naturalmente as equipes não fazem treinos, de 11h até 13h, nesse sol escaldante de Vitória. Os meninos entenderam que a gente precisava estar preparado física e psicologicamente. Teve rusgas, o que acontece em ambientes com muitas pessoas. Isso foi muito importante para tudo, difícil, mas que nos tirou da zona de conforto. Aí começa a evolução de atleta, do espírito coletivo”, relata.

Bruno Xavier

A evolução citada foi, em grande parte, proporcionada pelo veterano da areia, Bruno Xavier, convidado para o gramado sintético pelo próprio Camillo. “O Bruno é espetacular, e acho que todos os atletas deviam conviver com ele para saber como ele sobe nosso nível. Se eu me cuidar, escutar os conselhos dele, acho que vou até os 39. Bruno é um atleta extremo”.

Maurição

Outra peça chave para a conquista: o técnico Mauricio Bezerra de Menezes. “O Maurição se doa, gasta o dia dele se especializando. Se você fizer uma coisa bem feita, vai ter sucesso. Ele resolveu para vida dele ter o futebol de 7 em primeiro lugar e, por isso, ele tem o trabalho recompensado. Ele é especialista, lê o jogo, a criação de jogadas e, certamente, um dos maiores treinadores da história do esporte, muito rigoroso, chato pra caramba. Eu falo isso com ele”, diz e gargalha.

Dias seguintes

Engana-se quem acha que a vida tem sido apenas alegria, mesmo com o título conquistado. Camillo revela ter passado por dias de muita pressão, cobrança e descrédito, mas não cita quem seriam os detratores. As críticas recebidas tiveram de ser absorvidas, mas não foram guardadas – converteram-se em lágrimas.

“O que eu tenho vivido nos dois primeiros dias pós-competição? Primeiro agradeço a todo mundo que reconhece o que nós fazemos e, de certa forma, mandou mensagem. Não posso deixar de transmitir isso, pois o título poderia não ter vindo. É preciso que essas pessoas respeitem a nossa mentalidade. Muita gente está contaminada, fala o que quer, não tem filtro, cobra como quer e não entende que somos seres humanos falhos. O atleta sofre calado pq não temos suporte psicológico, não tem isso no Espírito Santo. na competição você vê um atleta chorando, sofrendo. Eu consegui me blindar na competição, mas nos dois dias seguintes eu preferi me fechar. Eu fiquei muito tranquilo na hora. Com os meninos eu não podia derramar uma lágrima, a não ser no último abraço do Bruno. Aí desabei. Quando venho pra casa, só eu sei o que passo. Se o título não vem, iriam nos achar um lixo. Não somos isso que eles pensam. Não peço uma trégua, mas que batam muito em mim, no Bruno, no Rafinha pq a gente é acostumado, porque às vezes está surgindo um super talento que pode ter a vida freada por essa covardia”.

Areia

Craque no campo sintético. Craque na areia. Camillo vem levantando taças também no beach soccer, modalidade em que ingressou a convite de Bruno Xavier, eleito o melhor do mundo em 2013 e 2014. Daqui a menos de um mês, ambos estarão na Itália, onde atuam pelo Pisa e foram diretamente responsáveis por dar o primeiro título da história do clube.

“Meu primeiro ano lá foi em 2021. Não queria ir porque não estava preparado. O Bruno me botou confiança, disse ‘preciso que você venha!’. Fui e só colhi coisas boas. Foi maravilhoso. Nosso time nunca tinha sido campeão italiano”, recorda.

Camillo marcou cinco gols nos três últimos jogos do Campeonato Italiano 2021: dois na vitória por 3 a 1 sobre o Napoli nas quartas de final, dois no triunfo por 6 a 4 sobre o Catania e mais um na grande final, diante do Terracina, vencida por 2 a 1. A consagração de dois brasileiros seis dias após a perda do título da Copa da Itália para o Catania, nos pênaltis.

“Foi uma Construção. Tudo foi feito assim. Seis dias depois de perder um título, éramos campeões. Aos poucos estávamos mais próximos que nos outros anos”, conta o atleta, que tem aspirações de chegar à seleção, seja ela a brasileira ou a italiana. Se depender do compatriota, Camillo vestirá a amarelinha, mas não é tão simples assim.

“Sou brasieliero e português, e o Bruno fala que vai me ver na Seleção Brasileira junto com ele. Penso em defender, se possível a sleção portuguesa. Porque é mais próximo, já que vivo na Europa. A gente vai jogar outra vez a Euro Winners (a Taça Europeia de Clubes de Futebol de Praia) pelo Pisa. É um sonho defender a Seleção Brasileira? É, mas vou optar por quem me abrir as portas primeiro”

Questionado o que Bruno Xavier acha da ideia, Camillo diz que a ideia não agrada o companheiro. “Ele não gosta muito, mas papai do céu prepara tudo de forma maravilhosa e vai ser assim também na areia. E isso eu agradeço a ele, porque ele é um ser humano incrível que elevou o nível a um lugar que eu mesmo desconhecia. Bruno é espetacular e só tenho a agradecer tudo que tem feito na minha vida”, afirma, antes de revelar a dureza dos treinos.

“Teve um dia que falei que estava com febre. Bruno me botou pra treinar com ele na praia de manhã, depois mais de 200 abdominais na academia. Depois, à tarde, mais treino. No final do dia eu estava passando mal. Ele disse ‘é isso aí, vai colher os frutos’”.

Futuro

Funcionário público lotado na Câmara de Vitória e graduando em Educação Física, Camillo tem muita lenha para queimar, tanto no futebol de 7 quanto na areia. Por enquanto segue dividido entre as duas modalidades, encarando diariamente as dificuldades do esporte. Obstáculos que parecem maiores no Espírito Santo. Por isso, o atleta pede apoio.

“Da estrutura da Unicapxiaba a gente não tem nada a reclamar. A gente vê que vão até onde podem, mas a gente sente que está no dever de cobrar sempre mais. Nós temos uma cobrança intensa do Maurição, do staff todo. Como não somos atletas profissionais da modalidade, temos uma vida paralela. No meio do grupo a gente teve que lidar com atleta com pai hospitalizado, a avó de outro com problemas, um irmão. Óbvio que isso afeta nos treinos e no desempenho do atleta. Não podem olhar para a gente só como mercadoria, mas como seres humanos”, conclui o Rei da América, intercedendo por seus companheiros.

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