quinta-feira, 19 de maio de 2022
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Exclusivo: Assistente confirma que cabeçada atingiu o seu nariz

As imagens da agressão cometida pelo técnico da Desportiva Ferroviária, Rafael Soriano, na árbitra assistente Marcielly Netto rodaram o Brasil e o mundo (veja no vídeo abaixo). O fato lamentável aconteceu no fim da tarde deste domingo (10), durante uma partida do Campeonato Capixaba 2022.

A reportagem do Portal MovNews conseguiu uma exclusiva com a árbitra assistente, que explicou como tudo aconteceu. De acordo com a profissional, o caso poderia ter sido ainda pior.

“(A cabeçada) atingiu na ponta do meu nariz. Eu vi que ele ia fazer alguma coisa, eu dei um impulso para trás. E ainda bem, né, porque se pegasse em cheio talvez até me machucaria. Na câmera da transmissão tem uma pessoa na frente, mas na câmera lateral pega e essa imagem já está com o STJD e com o pessoal da Federação”.

“Já fui ofendida verbalmente antes, mas agressão física eu nunca tinha sofrido. Já fiz boletim de ocorrência e devagar as coisas vão fluindo”

Cid Fernandes/Rio Branco FC

Marcielly Netto, de 27 anos, trabalha na arbitragem profissional no Espírito Santo desde 2015. Também integrante do quadro de árbitros da CBF, a assistente revela que teve que se recompor em pouco tempo para seguir na partida e só depois conseguiu ter noção do que tinha acontecido.

“Quando aconteceu (a cabeçada), no intervalo do jogo, eu tive que absorver a situação em 10 minutos e voltar para o segundo tempo, porque a gente tinha que terminar o jogo. Quando cheguei no vestiário após o final da partida que fui ter uma ideia do que estava acontecendo. Eram muitos vídeos. Acabou viralizando”.

A partida entre Nova Venécia e Desportiva Ferroviária era o jogo de volta das quartas de final do Capixabão e terminou com a vitória do Verdão do Norte por 3 a 1. Seria um resultado comum, porém, a cabeçada do técnico na árbitra assistente ganhou os holofotes.

Nascida em Colatina, Região Noroeste do Espírito Santo, Marcielly Netto acredita que pode dar ao fato ruim uma conotação positiva, haja vista que é uma oportunidade de servir de exemplo para que outras mulheres, em todo o país, não esmoreçam diante das dificuldades em ambientes machistas.

“Até o momento estou um pouco perdida, confesso, um pouco assustada com essa repercussão, não esperava. Sei que é de forma negativa, mas eu posso usar isso pra mostrar a minha presença de representar uma classe feminina, de lutar por coisas que as mulheres têm que ter. Aconteceu, fico triste pela situação, triste pelo ocorrido, mas isso serve pra mostrar pra sociedade como as coisas acontecem.”

Reprodução/Instagram

De volta ao trabalho

Mesmo com a rotina bem atribulada nessa segunda-feira, atendendo à vários pedidos de entrevista, Marcielly Netto já está com a cabeça no próximo jogo no qual irá trabalhar: a estreia do Real Noroeste na Série D do Brasileiro, neste domingo (17) contra o Bahia de Feira, em Águia Branca.

“Vou continuar firme e forte. Não tenho porque me abalar e no fim de semana já tenho um jogo pela Série D do Brasileiro. Não tenho porque abaixar a cabeça. Não foi culpa minha. Vou seguir de cabeça erguida, continuar trabalhando em busca dos meus objetivos”.

Após a agressão, ainda no intervalo da partida, o técnico Rafael Soriano acusou a árbitra assistente de estar se aproveitando da situação por ser mulher, fato que foi totalmente repudiado pela profissional.

“Eu estou tranquila, com a consciência tranquila. Lógico, é uma coisa que a gente não espera, não tem como prever. Estou deixando as coisas se acalmarem, pra gente ver devagar o que vai fazer. Depois do jogo ele saiu falando que eu tinha inventado porque eu era mulher, coisa que não tem nada a ver. É complicado, mas a gente vai segurar essa onda aí”.

RP Fotografia Esportiva

Empoderamento feminino

Por fim, Marcielly Neto fez questão de enaltecer o empoderamento feminino, em busca de igualdade e respeito não apenas em sua profissão, mas para todas as mulheres nas mais variadas áreas e funções.

“Apesar de ser um esporte, um local que é de predominância masculina, a gente tem que mostrar o nosso valor, mostrar porque está ali. E onde a gente puder representar uma classe com orgulho. A gente tem que fazer isso. Então, hoje, representar a classe feminina é um orgulho, é gratificante ver a mobilização que está aí nas redes sociais. Então é isso, cabeça erguida”, finaliza.

Entenda o caso

Na tarde deste domingo (10), durante o intervalo do jogo de volta das quartas de final do Campeonato Capixaba 2022, entre Nova Venécia e Desportiva Ferroviária, o técnico da Locomotiva Grená, Rafael Soriano, deu uma cabeçada na direção da árbitra assistente Marcielly Netto.

A bandeirinha tentou se esquivar e colocou a mão no rosto para se proteger da agressão. O técnico foi expulso pelo árbitro, e a assistente registrou boletim de ocorrência contra Soriano.

Na sequência, horas mais tarde, Rafael Soriano foi demitido do cargo de técnico pela Desportiva Ferroviária, que acabou também eliminada do Capixabão, ao ser derrotada por 3 a 1.

A Federação de Futebol do Espírito Santo (FES), o governador do Estado, Renato Casagrande e diversos times de futebol, dentro e fora do Espírito Santo, emitiram notas de repúdio e se solidarizaram com a assistente Marcielly Netto.

Ainda no fim da noite deste domingo, o treinador foi suspenso preventivamente por 30 dias pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Espírito Santo (TJD-ES). Rafael Soriano ainda pode pegar um gancho maior, de pelo menos 180 dias, de acordo com o Parágrafo 3º do Art. 254-A do Código Brasileiro de Justiça Desportiva.

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