Precisamos cuidar da MPB

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Reprodução Instagram @gilbertogil

Nos idos de 1967, um festival de música icônico desdobrou-se como um pincelar primordial na tela musical do Brasil. Emanava um frescor de juventude e inovação, revelando nomes que viriam a ser como estrelas da constelação da Música Popular Brasileira – MPB. Uma ebulição criativa pairava no ar, tão densa quanto os acordes que ecoavam dos violões e das guitarras.

A efervescência musical daquele momento culminou na formação da MPB, um movimento que transcendia fronteiras rítmicas e se arriscava por territórios sonoros até então desconhecidos. Uma geração de artistas ousava, misturava, reinterpretava, e a trilha sonora de um país se reinventava em harmonias desafiadoras e letras que flertavam com a poesia. Nas vozes de Rita Lee, Caetano Veloso, Chico Buarque e tantos outros, emergia uma identidade musical brasileira que traduzia as emoções e questionamentos da época.

Ao som de “Tropicália”, Caetano, Gil e Gal convocaram uma explosão de cores, influências e atitude, uma celebração dos contrastes e da brasilidade única que abraçava sua rica diversidade cultural. Era um desafio ao status quo, uma chamada à liberdade criativa que pavimentava novos caminhos na música.

Os Mutantes, mesmo em meio a protestos, com guitarras estrangeiras e sentimentos de imperatividade, quebravam barreiras e incorporavam a energia elétrica do rock, tecendo uma costura sônica distinta. Enquanto isso, a MPB seguia desenhando sua trama com uma paleta de sons ricos e texturas variadas.

As décadas passaram e aquele movimento ousado evoluiu em um legado perene. Jorge Ben Jor, Milton Nascimento, Elis Regina, Toquinho, Vinícius de Moraes, Djavan e Rita Lee foram apenas alguns dos muitos que acrescentaram suas cores a esse mosaico musical.

Também encontraram espaço João Bosco e Belchior, que entoaram suas canções carregadas de significado e reflexão.

Mas o tempo, inexorável, pôs suas marcas. Alguns partiram, outros viram suas forças serem amenizadas pelo peso dos anos. Caetano, Gil e Chico, os pioneiros, ultrapassaram as oito décadas, portando como troféus uma trajetória de resiliência e inovação.

Enquanto Milton Nascimento abraça o repouso merecido e os pioneiros atravessam a fronteira do tempo, há quem segure o bastão, quem crie, quem balance as estruturas, quem se incline para ouvir os sussurros da história e os segredos das melodias entrelaçadas. A efervescência da MPB não se dissipa; ela se transforma, reverberando nas vozes de artistas emergentes, ecoando nas canções que se tornam trilhas sonoras das novas jornadas.

À medida que o tempo avança, contemplamos a jornada musical dos mestres e discípulos da MPB. A segunda geração, como Jorge Vercilo, Alceu Valença, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo, seguindo as trilhas de seus predecessores, acrescentou novos matizes ao mosaico sonoro do Brasil. Suas canções ecoaram as paisagens, as histórias e as experiências do Nordeste, enriquecendo ainda mais o panorama musical do país.

No entanto, mesmo com a presença de artistas como Marisa Monte e Thiago Iorc, a sensação é de que há uma lacuna cada vez mais ampla a ser preenchida. A velocidade da produção musical moderna, impulsionada pela tecnologia, parece valorizar mais a instantaneidade e a apelo superficial do que a profundidade poética e a riqueza das letras. As canções de hoje muitas vezes privilegiam ritmos pulsantes e refrões marcantes, relegando a narrativa e o pensamento reflexivo a segundo plano.

A evolução da tecnologia também tem desempenhado um papel no afastamento das produções musicais colaborativas. As composições, antes fruto de interações e sinergias entre músicos, agora frequentemente nascem em isolamento, originando-se das mentes individuais atrás das telas dos computadores. Essa mudança tem consequências, pois a magia que surge quando artistas se unem em estúdios para criar, explorar e desafiar seus limites, muitas vezes se perde em meio às interfaces digitais.

O destino dos ícones da MPB, os pilares de uma era musical, é um tema delicado. Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, como gigantes que são, têm resistido ao passar dos anos e continuam a presentear os palcos com sua presença, embora em doses cada vez mais espaçadas. No entanto, a inevitabilidade da mudança paira sobre todos nós, independentemente de quão lendária seja a nossa jornada.

As canções que nos tocaram profundamente, como “Construção” e “Se EU Quiser Falar com Deus”, ganharam um lugar especial em nossos corações e almas. No entanto, as melodias contemporâneas refletem um zeitgeist diferente, um mundo em constante fluxo e mutação. Se “Roda Mundo, Roda-Gigante” e “Gosto Muito de Te Ver, Leãozinho” encontram seu espaço, elas fazem parte da evolução natural, uma expressão musical de sua época.

Nossa preocupação em preservar a essência intelectual e reflexiva da MPB é válida e pertinente. No entanto, é também importante lembrar que a música é um espelho de seu contexto, e as gerações futuras continuarão a transmitir as complexas camadas da experiência humana, cada uma a seu modo.

E assim, enquanto nos despedimos deste capítulo da história da Música Popular Brasileira, um chamado ressoa alto e claro. Um apelo urgente para que todos nós, amantes da música e da cultura, estejamos atentos ao futuro que se desenha diante de nós. A sombra da inércia ameaça a essência vibrante da MPB, mas também nos oferece a oportunidade de tomar as rédeas do destino musical do Brasil.

Os tempos estão em constante mudança, mas o desejo de expressão, de reflexão e de conexão através da música permanece inabalável. Se não cuidarmos desse tesouro musical, se não valorizarmos e apoiarmos os artistas que se esforçam para manter a tradição e a inovação, corremos o risco de testemunhar o apagar das luzes da MPB.

A história nos ensina que a criação artística é um legado que se passa de geração em geração. Hoje, mais do que nunca, é crucial agirmos como guardiões dessa herança cultural. Devemos apoiar os jovens artistas, encorajar a exploração criativa e manter a chama do diálogo e da profundidade poética acesa nas canções que ouvimos. A música não é apenas um som; é um eco dos tempos, uma narrativa de vidas e sonhos entrelaçados.

Que este apelo ecoe em nossos corações, motivando-nos a apoiar a continuação da MPB, a celebrar sua diversidade e a fomentar um ambiente que nutra e dê voz aos novos talentos. A MPB, como qualquer forma de arte, é um organismo vivo, mutante, resiliente.

O futuro pode trazer surpresas, desde que nos unamos para moldá-lo com cuidado e dedicação. Que cada acorde, cada verso, cada harmonia seja uma nota na sinfonia da renovação, um tributo à rica história que nos trouxe até aqui.

Portanto, que a nossa paixão pela MPB não seja apenas uma lembrança do passado glorioso, mas uma chama que ilumina o presente e orienta o futuro. Juntos, podemos assegurar que a Música Popular Brasileira continue a ser a voz da alma brasileira, contando histórias que ecoam através das eras e transcendem as fronteiras do tempo.

Edilson Lucas é produtor e promotor musical.

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