quinta-feira, 21 de abril de 2022
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A vitória do samba na primeira noite de desfiles do Carnaval de Vitória 2022

Os tambores anunciavam que era chegada a hora do sambista triunfar de novo. As cinzas de uma quarta-feira que durou dois anos foram varridas da avenida e o Sambão do Povo se iluminou mais uma vez para a primeira noite de desfile das Escolas de Samba do Carnaval de Vitória 2022. Da noite desta quinta (7) até a madrugada de sexta (8), as agremiações do grupo de Acesso B cantaram histórias que encantaram a multidão.

Cinco escolas deram início à busca pela glória do samba. Unidos de Barreiros, Independente de Eucalipto, União Jovem de Itacibá, Mocidade Serrana e Tradição Serrana coloriram em sonho e fantasia, história e poesia a acirrada disputa por uma vaga no grupo de Acesso A. Alguns problemas em carros alegóricos fizeram seus componentes temer pelo pior, mas, no fim, o espetáculo não perdeu o brilho. Confira.

Barreiros homenageia Nzinga, Elza, Ruth e Ciata

A Unidos de Barreiros cantou a força das mulheres negras com o enredo “Nzinga, rainhas, guerreiras, negras”. De vermelho e branco, a escola de São Cristóvão, na capital, narrou a luta contra a escravidão, o racismo e a opressão a partir da história de Nzinga Mbandi, rainha e guerreira de Angola que enfrentou os portugueses, passando pela cantora Elza Soares, a atriz Ruth de Souza e Tia Ciata, cozinheira, mãe de santo e de tantos bambas.

“Viajamos por grandes civilizações, como o Egito, falamos sobre a rainha de Sabá até chegar ao Brasil, contando a história de Elza Soares, de Ruth de Souza e outras grandes mulheres, como tia Ciata”, explicou o autor do enredo, Douglas Palluzzo, inspirado no filme biográfico angolano “Njinga, Rainha de Angola”, de Sérgio Graciano e escrito por Joana Jorge.

Foto: Divulgação/PMV

O samba-enredo e a apresentação na avenida credenciam a Unidos de Barreiros a nutrir expectativas de subir para o grupo de Acesso A no ano que vem. “A gente veio pra ganhar cantando a força das mulheres”, garantiu o coreógrafo Ricardo Carvalho, responsável por apresentar logo na comissão de frente, composta somente por mulheres, a ancestralidade das grandes guerreiras que lutaram e defenderam suas tribos e etnias.

Na sequência, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marlon Lamar e Tainá Teixeira, trouxe a realeza de Matamba, que germinaria então na nação de Angola. Do reino veio a inspiração para o carro abre-alas da escola, espalhando a reverência à África por todo primeiro setor do desfile da vermelho e branco.

Com uma fantasia batizada de “Mãe África”, a rainha de bateria Fernanda Maragoni avançava seguida dos ritmistas da Bateria Furacão, guiados por mestre Igor Nonato e exaltando a força africana. Uma exibição de almanaque premiada com um recuo preciso e que garantiu à escola uma evolução sem brechas.

“Antes de conhecer o carnaval de Vitória, eu não imaginava que fosse desse tamanho, tinha a impressão de ser menor. A energia aqui é maravilhosa. Essa vibração é única. Aqui a gente consegue sentir a arquibancada muito mais perto, é uma delícia”, elogiou o modelo japonês Yoji Leão, que desfila há 25 anos na Marquês da Sapucaí, também reina à frente da bateria da Unidos de Barreiros, ao lado de Fernanda Marangoni.

Rainha de bateria da Unidos de Barreiros, Fernanda Marangoni – Foto: Divulgação/PMV

Entre os grandes nomes da história levados pela Unidos de Barreiros estavam a rainha de Sabá, da Etiópia, e Nefertiti, rainha da XVIII dinastia do Antigo Egito. Prestes a encerrar o desfile, Winnie Bueno, mulher que enfrentou o apartheid social na Índia; Tia Ciata, mãe de santo de Oxum e doceira a quem muito deve o samba brasileiro por seu nascimento; a Ruth de Souza, uma das maiores damas da dramaturgia brasileira; Elza Soares, a voz do milênio e uma das gigantes da música e que morreu em janeiro deste ano; e a capixaba Maria Helena Pereira, presidente do instituto Mão na Massa e que faleceu de Covid-19.

Independente de Eucalipto

Foto: Divulgação/PMV

A cultura e a história representadas nas belezas naturais, étnicas e sociais do Espírito Santo moldaram o enredo da Independente de Eucalipto, um testemunho de amor ao traço capixaba. Coloridas fantasias em reverência ao patrimônio estadual alegraram as arquibancadas.

A escola apresentou as alas do Amor, da Natureza, das Araras, das Baianas e do Sol Guaraci. Com 600 componentes, o Leão defendeu seus ramos de eucalipto com um carro alegórico mostrando a força da natureza, Romeu e Julieta tupiniquins, as tribos dos Botocudos e Temiminós e a representação de apaixonados transformados em montes por cometerem o crime de mostrar seus sentimentos.

Comissão de frente em forma de oca indígena e o casal de mestre-sala e porta-bandeira marcaram a passagem pela avenida. Vieram ainda tribos representadas por indígenas caracterizados e alegorias coloridas em azul, branco e rosa.

Foto: Divulgação/PMV

Ponto alto do desfile, povos indígenas que habitavam o Espírito Santo levaram cor à passarela com Pajés de destaque. O abre-alas trouxe a ave mitológica Fênix, enquanto componentes simbolizavam nas fantasias a cultura capixaba entoando os seguintes versos:

“Revolta na aldeia, cacique mandou, terra desmarcada, almas separadas mas a chama não calou”, e “Um forte laço não quebra, fogo que aquece a alma, explode a magia no meu coração”.

Feito o samba imortal de Martinho da Vila, a fênix simbolizava o renascimento da escola em meio às cinzas. A Eucalipto voltou a disputar o carnaval em 2018 e expressou o sentimento de volta por cima com a ave que arde em chamas de vida e da esperança.

União Jovem de Itacibá

Foto: Divulgação/PMV

De Cariacica, a União Jovem de Itacibá cruzou a avenida em desfile de superação. Terceira escola a pisar no Sambão do Povo, quando a madrugada já avançava, a verde e branco apresentou problemas no carro abre-alas, mas foi levado até o fim na base da garra dos empurradores.

O sambista cujo sonho é triunfar se apoiou então na força da bateria e na voz da comunidade. “Estou virada há três dias, trabalhando no nosso barracão. Esse desfile foi a força da nossa comunidade, que abraçou a escola, que nos levou do início ao fim da avenida. Estou muito emocionada”, disse a vice-presidente da agremiação, Edilandin Santana.

E assim a União Jovem de Itacibá mostrou seu enredo: “Nossos poetas decantam aspectos, facetas e elementos das quatro estações do ano: uma ode sublime às forças da natureza, à cultura e à vida”, uma viagem pela Música Popular Brasileira e suas canções sobre primavera, verão, outono e inverno. Palmas para a bateria Força Jovem, que presenteou o público presente com paradinhas e um “paradão”, explodindo no coro da comunidade.

Criadores do enredo, Fábio Meireles e Bira Meireles formaram com Edivaldo Ferreira a comissão de carnaval da escola, que desfilou cheia de cores nas fantasias, reforçando os versos do samba deste ano: “Minha escola te convida, faz a festa na avenida, nesse lindo visual brincar no colorido do seu carnaval”.

Foto: Divulgação/PMV

O desfile começou com a estação das flores no primeiro setor do Colibri de Cariacica. Fernando Queiróz buscou inspiração na música “Céu de Santo Amaro”, juntado Johann Sebastian Bach e Flávio Venturini para a comissão de frente exibir o beija-flor da verde e branco, que representou a vida pulsante da primavera.

No carro abre-alas, a mãe terra, Gaia, veio nos versos da famosa canção “Terra”, de Caetano Veloso. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola, Gedilson da Silva e Nívea Pires, representaram “As forças da natureza”, composição de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, poeta e marido da eterna Clara Nunes, a mineira que consagrou o épico renascer das matas, triunfando sobre as pragas, as armas e os homens de mal.

A inspiração para a ala das baianas veio de “Banho de Fé”, de Arlindo Cruz, Sereno e Sombrinha, frutos do Fundo de Quintal. Entre as componentes, Lorrayne Martins, de apenas 16 anos, e Marilda Souza, de 65 anos. Apaixonada pela agremiação e pelo carnaval, Jô de Jesus, 44 anos, girou sua saia colorida e dançou do início ao fim. “É surreal estar aqui. Estou feliz demais, não existe nada igual. O carnaval está na alma da gente.”

O calor do verão veio no segundo setor, inspirado por “Canção de Verão”, de Beto Guedes, na abertura, e “Milagre dos Peixes”, de Fernando Brandt e Milton Nascimento, na ala das crianças.

Outono e inverno

O outono não viria de outra forma que não fosse com as “Águas de Março”, clássico de Tom Jobim. Shirley de Oliveira, rainha de bateria, desfilou vestida de “Frevo Mulher”, de Zé Ramalho e gravada inicialmente por Amelinha”. “A força que nunca seca”, de Chico César e Vanessa da Matta, estava representada na bateria da União Jovem.

Os passistas cruzaram a passarela com outro clássico: “Yes, Nós temos Bananas”, do gênio João de Barro, o Braguinha. Em seguida, para o inverno, foi a vez de Djava inspirar o quarto setor com “Nem um dia”, conceituando assim o segundo carro alegórico. O desfecho foi com a Velha Guarda da escola, alusiva à música “Mais Uma Vez”, de Flávio Venturini e Renato Russo.

Mocidade Serrana

Mocidade Serrana

Tradição do bairro José de Anchieta, na Serra, a Mocidade Serrana veio com o enredo “Favela Berço do Samba e da Imperatriz”, que falou de pessoas que venceram o preconceito sofrido por simplesmente morarem nas favelas de gente guerreira que transforma a tristeza em festa, arte e beleza.

Batizados, casamentos e aniversários abençoados por santos tradicionais, com as cores e a alegria das comunidades menos abastadas foram representados pelos componentes da roxa e amarela. Jogadores de futebol, dançarinos, capoeiristas, dançarinos de hip hop, funk e jovens eram o retrato orgulhoso de suas comunidades a passar no Sambão do Povo. No carro alegórico, as chances e desafios de se morar onde pousa o olhar do preconceito.

O Morro do Penedo e bairros que possuem favela foram lembrados. Uma das mensagens em destaque pela foi que favelado não é bandido e o morro é uma fábrica de formação de talentos. Dona Lili, amante do samba, e o já falecido e amado Moacyr Poeta, destacado compositor de importantes sambas foram homenageados e emocionaram o público presente no Sambão.

As cerimônias das águas na rua das Mulheres de cultos afro-brasileiros, poço dos escravos tiveram destaque nas alegorias e fantasias que surpreenderam pela ousadia. As fantasias coloridas e as danças das componentes surpreenderam o público.

A comissão de frente teve as tradicionais “carregadeiras” de águas nas ruas, as “Latas d água na Cabeça” e as representações de homens como guardiões de ruas, dos becos e de vielas sempre parte das paisagens das favelas. Mulheres como moradoras de morro que aprenderam com a famosa e respeitada Dona Lili a buscar água na Gruta da Onça, uma referência de lugar num tradicional bairro da capital.

Foi destaque também a ala dos Imigrantes nordestinos que foi representada com povos de todas as nações que vieram para as cidades após o período de escravidão em épocas de guerras e muito sofrimento. Gente que não tinha como pagar suas moradias e em cima do morro acharam um lar, um abrigo abençoado.

Tiveram destaque também as alas dos festejos juninos, da brincadeira de crianças e da Faculdade de Música. O enredo cheio de emoção fez o público brilhar. “Canta Mocidade solta a voz do coração. É hoje a nossa consagração. Desbravando um preconceito sem igual. Cruzando fronteiras. Desde os tempos de menina vovó Lili. Para sacudir geral. Moacyr o poeta do meu Carnaval.

Personagens que deverão sempre ser lembrados, não só na bonita letra e representação da escola da Serra, mas na memória dos moradores de favelas existentes em todo Espírito Santo. Apesar das dificuldades, com empenho e suor, a escola sonha crescer e mostrou que pode avançar ainda mais.

Tradição Serrana

Foto: Divulgação/PMV

“Sonho ou loucura? O gênio artista é criador ou criatura?” Assim questionou a Tradição Serrana no Sambão do Povo, encerrando a primeira noite de desfiles do Carnaval de Vitória. A agremiação de Feu Rosa, na Serra, apresentou ao público o enredo “A mágica do saber, a Tradição conta para você”.

A agremiação passou com dificuldade pela passarela do samba, com poucas alas. A comissão de frente veio resgatando clássicos da literatura infantil facilmente identificados pelo público, como o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, com direito ao famoso pó de pirlimpimpim da boneca falante mais famosa da literatura brasileira.

“Eu nasci nessa escola. Sou filha de um dos fundadores. A emoção é muito grande. A nossa missão é trazer um pouco de alegria para as pessoas”, afirmou a diretora de Harmonia da escola, Marcela Cunha.

À frente da bateria, o mestre Loriano Felix conduziu os ritmistas com muita simpatia junto à rainha Leidiele de Oliveira. No microfone da Tradição, Michel Felipe comandou o show. O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Roberta e Mosquito, chamou a atenção pela fantasia luxuosa, com muita pedraria.

 

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