Invisibilidade do trabalho de cuidado da mulher: o que elas dizem sobre o assunto?

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Foto: reprodução banco de imagens

No último domingo (05) milhões de pessoas realizaram as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e nesse primeiro dia de prova fizeram também a redação do Exame.

“Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil” foi o tema da redação anunciado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua 2022, conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais às tarefas domésticas e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens investem 11,7 horas nessa atividade.

A pesquisa também aponta que as mulheres negras são as que mais realizam essas tarefas, com uma taxa de 92,7%, superando as mulheres pardas (91,9%) e brancas (90,5%).

Assim como em outros anos o tema da redação do Enem 2023 foi um dos mais comentados nas redes sociais. E entre as inúmeras publicações uma ilustração que retrata um pouco da complexidade da temática circulou bastante nas redes.

A imagem foi feita pelo arquiteto, designer, caricaturista e ensaísta peruano, Carlos Miguel Tovar Samanez, também conhecido por Carlín.

Diante da complexidade do tema e apresentando a imagem acima, a equipe do MovNews escutou quem de fato sofre com a invisibilidade do trabalho de cuidado, às mulheres. Mostramos essa mesma imagem para mulheres em diferentes realidades.

Gisele Barcellos de 49 anos é casada e tem dois filhos

Gisele Barcellos de 49 anos, é casada e tem dois filhos. Ela conta que além de ter que concorrer com os homens no mercado de trabalho, ainda precisa dar conta das tarefas de casa.

“A gente ainda tem que competir no mercado de trabalho com os homens, sendo que a gente trabalha o dia inteiro e ainda tem que manter todas as nossas tarefas diárias. Vejo que perante a sociedade é visível a invisibilidade desses serviços domésticos. Por mais que se tenha às vezes até uma pessoa que ajuda no serviço de casa, nas tarefas, uma mãe, um vizinho, mas no geral é a gente mesmo, para fazer as coisas de casa.” 

Camila Valadão tem 39 anos, é deputada estadual, casada e mãe

Para a deputada estadual, Camila Valadão (Psol) de 39 anos, a sobrecarga mostrada na imagem é reflexo da desigualdade:

“Bom, eu acho que a imagem é ilustrativa da realidade das mulheres, que têm uma sobrecarga enorme a partir de uma desigual divisão sexual do trabalho, que também tem relação direta com a forma como o cuidado é entendido como uma tarefa estritamente feminina.”

Ela completa destacando a posição de desvantagem das mulheres evidenciada na imagem: “a imagem demonstra como que as mulheres estão nessa posição de desvantagem, praticamente desde que nascem com essa construção social do patriarcado, e que para superar todas essas imposições são muitos desafios para elas estarem de fato em condições de igualdade em relação aos homens.”

Já para Bruna Moura de 31 anos, que é solteira e não tem filhos, a realidade mostrada na imagem é o resultado de como a sociedade enxerga as mulheres.

“Infelizmente, vivemos uma cultura machista e marcada pelo patriarcado. Essa cultura enxerga a mulher como a única que deve fazer todos os afazeres domésticos, cuidar dos filhos e da família, e ainda trabalhar fora, se for o caso. Essa visão é extremamente prejudicial às mulheres, pois coloca uma sobrecarga sobre elas, que precisam conciliar trabalho, família e casa.”

Bruna Moura tem 31 anos é solteira e não tem filhos

Bruna ainda destaca que é importante combater o machismo para alcançar mudanças com relação ao atual contexto:

“O machismo também é responsável por diversas formas de violência contra a mulher, como o feminicídio, o assédio sexual e o estupro. Acredito que é importante combater o machismo e o patriarcado para que as mulheres possam ter uma vida mais justa e igualitária. Para isso, é preciso conscientizar a população sobre a importância da equidade de gênero e promover mudanças na sociedade”.

 

 

 

Ane Halama, tem 39 anos é ativista da causa LGBTQIAPN+, casada e não tem filhos

Ane Halama de 39 anos é advogada, ativista da causa LGBTQIAPN+,  presidenta do Psol-ES e explica que o trabalho doméstico não remunerado realizado pela mulher é uma criação da nossa sociedade e que existe há tempos.

“O trabalho doméstico não remunerado é uma das expressões do capitalismo e do patriarcado que permeia a nossa sociedade, no sentido de que a sociedade é preparada para que uma pessoa participe e a outra sirva. Essa pessoa que participa é o homem e temos a mulher enquanto a pessoa que serve e não é remunerada por isso. A gente tem dados de que as mulheres seguem fazendo muito mais horas de trabalho doméstico do que os homens porque é dessa forma que a nossa sociedade foi construída e é isso que a gente precisa trabalhar para destruir, para construir novas bases sociais que coloquem a mulher em pé de igualdade em relação aos homens.” 

Ane ainda destaca a importância do assunto ter sido tema da redação do Enem:

“A redação do Enem traz um tema muitíssimo importante, de bastante relevância para trazer luz. Justamente nessa questão em que as mulheres são colocadas em um segundo plano na nossa sociedade, enquanto os homens seguem com maiores salários, com mais espaços de poder e sem precisar realizar as atividades domésticas, ou realizando essas atividades domésticas em menor número do que as mulheres”. 

O MovNews gostaria de escutar outras mulheres sobre a temática da invisibilidade do trabalho do cuidado realizado pela mulher. Se você tem algo que queira compartilhar sobre o assunto envie para nossa redação através do e-mail [email protected] ou deixe seu comentário aqui ou em nossas redes sociais.

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