sexta-feira, 19 de abril de 2024
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Por que há tanta desigualdade na trajetória de homens e mulheres?

Trabalhar fora, cuidar da casa, da roupa, da louça, cuidar de si, ser saudável, cuidar dos filhos, da família, dos pets; essas são algumas das inúmeras tarefas nas jornadas duplas, triplas, vividas por inúmeras mulheres.

A trajetória de homens e mulheres é formada por obstáculos diferentes e o resultado disso é uma sociedade desigual. Recentemente a temática do trabalho doméstico atribuído de forma naturalizada à mulher foi tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o assunto foi muito comentado e a reportagem do MovNews escutou muitas mulheres sobre essa questão.

Muitas mulheres compartilharam suas experiências e outras questionam o excesso de atividades atribuídas as mulheres como algo comum e natural.

Edlaine Braga, de 34 anos

Para a analista técnica de 34 anos, Edlaine Braga, homens e mulheres têm responsabilidades e preocupações diferentes e isso impacta diretamente os resultados alcançados.

“A gente, enquanto mulheres, entramos no mercado de trabalho tendo que dar conta de várias outras atividades, tem que ter toda uma preocupação, além da atividade em si, para competir com pessoas que só vão chegar em casa e descansar, vão fazer a sua aula de inglês ou praticar uma atividade física, né. Enquanto a gente faz isso tudo, tendo a preocupação de estar bem arrumada, estar bem esteticamente para passar uma imagem, tem essa preocupação, tem a preocupação de gerenciar todas as atividades da casa, tem a preocupação de fazer um bom trabalho, né, na empresa, estar se capacitando, estar estudando, e para as mulheres que têm filhos ainda tem que cuidar da criança.”

Edlaine ainda destaca que muitas das atividades exercidas pelas mulheres não são reconhecidas.

“Eu fico me perguntando o que a gente seria capaz de fazer se a gente não tivesse tantas outras atribuições. Sendo que a gente dá conta de muita coisa e muito bem feito. Mesmo tendo que fazer várias atividades que, inclusive, não são reconhecidas socialmente, né.
As pessoas não reconhecem como atividade. É como se a gente nascesse com isso. É como se fosse uma coisa que veio e não que a gente foi aprendendo culturalmente.” explica.

Stael Magesck, de 50 anos

A estilista, multi artista, empreendedora produtora cultural, Stael Magesck de 50 anos, explica que para ela a realidade vivida pelas mulheres é algo já enraizado:

“É uma questão que já está enraizada o conceito que se tem na cabeça do patriarcado que é como se fosse comum essas tarefas de cuidar da casa, de cuidar dos outros. Isso ser delegado a mulher como se fosse comum, né.”

Ela ainda falou sobre o quanto as mulheres precisam abrir mão em função das inúmeras responsabilidades atribuídas a elas:

“Muitas mulheres têm que abdicar de uma vida inteira porque tem um filho cadeirante alguém da família que tem alguma limitação e elas precisam de abrir mão do sonho delas, abrir mão da carreira, abrir mão dos desejos porque é como se essa missão fosse delegada a ela e de uma forma muito natural. Já nasceu para ser assim. Não, a mulher não nasceu para ser assim. Então, realmente acho que é um tema muito relevante a se pensar para que a gente possa pensar políticas públicas e mudar esse cenário, mudar, em primeiro lugar, a mente das pessoas. Que ainda pensam que isso é natural e que ela não precisa de ser valorizada por isso.”

Brice Bragato, de 70 anos

Para a ex-deputada e assistente social, Brice Bragato de 70 anos, naturalizar o trabalho doméstico como algo inerente a mulher é uma forma de exploração:

“Na corrida de homens e mulheres, os homens vão correr livres à frente e as mulheres vão correr com todos os obstáculos que a vida lhe tem imposto, lhe tem imposto de cuidados, cuidados com a casa, com o fogão, o tanque, os filhos, as mães velhas, o marido, essas supostas tarefas naturais da mulher, na verdade são a maior forma de exploração e uma forma de discriminação, uma forma de diferenciar e de submeter as mulheres a um trabalho de exaustão. Então, a nossa corrida é sempre mais lenta, nós demoramos mais para chegar, porque nós temos carregado conosco muitas coisas que parecem naturais, que são os cuidados com todo mundo, com a casa, com tudo, mas que não são naturais e que a gente precisa protestar contra, se livrar disso, porque isso impede as mulheres de acender no espaço público, na vida profissional, na política, na militância, enfim, fora de casa, enquanto para os homens a corrida é livre.”

Letícia Aguiar, 27 anos

A empresária Letícia Aguiar de 27 anos, destaca que o trabalho de cuidado atribuído à mulher é um trabalho como tantos outros: “Minha mãe sempre disse que o trabalho mais ingrato é o trabalho de casa. As pessoas esquecem que o trabalho de cuidado, seja cuidar das crianças, de idosos, da família, da casa, continua sendo um trabalho. Na minha visão, quem fica incomodado (a) com o tema do Enem 2023 tem muito privilégio e nenhuma consciência de classe. É triste ver que ainda existem muitas pessoas, inclusive mulheres, que se diminuem por estarem entranhadas na ideologia da classe dominante. Mas esperava mais empatia, afinal de contas, o que o tema tornou visível? As mães, as tias, as avós, as primas e as amigas que estão a nossa volta”.

O MovNews segue escutando as mulheres sobre essa temática, se você tem uma história ou uma opinião que gostaria de compartilhar envie para gente. A busca pela igualdade de gênero é uma construção coletiva e dar visibilidade ao assunto é um dos caminhos deste processo.

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