domingo, 1 de maio de 2022
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Mobilidade urbana: Grande Vitória tem mais de 220 km de ciclovia, mas ainda enfrenta desafios

A adoção da bicicleta como principal meio de transporte é uma tendência global. Seja para fugir de engarrafamentos, economizar na passagem de ônibus e no combustível do carro, por saúde ou simplesmente para o lazer, ciclistas vêm lutando por espaço. Todos esses fatores levaram o governo de São Paulo a anunciar a construção da maior ciclovia do Brasil, com 57 km de extensão, ligando a capital paulista à cidade de Itupeva.

No Espírito Santo, a malha cicloviária também avança. Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica são as quatro principais cidades integrantes da Região Metropolitana da Grande Vitória. Juntas, possuem 222,13 quilômetros (km) de pista para bicicletas. Prefeituras e também o governo do Estado preparam mais infraestrutura para o modal. No entanto, cicloativistas consideram seu espaço insuficiente, deficiente e ineficiente.

“Quando existem ciclovias, normalmente, elas são insuficientes, deficientes e ineficientes. Elas não se conectam na maior parte das vezes, não cumprem seu papel e induzem o ciclista a usar de forma parcial ou não usar uma infraestrutura”, afirma o Fernando Braga, de 62 anos, sendo quase metade da vida se entendendo como cicloativista.

Nos últimos 25 anos, Braga trabalhou em Vitória, Vila Velha e Cariacica. Na maior parte das vezes, ia – e ainda vai – para o trabalho de bicicleta. Professor de Educação Física na rede pública de Ensino da Capital, ele acumula ainda o posto de servidor estadual, atuando no Centro de Reabilitação Física do Espírito Santo (Crefes), no município canela-verde. É daí que tira seus exemplos mais cruciais, embora reconheça a avanços para os ciclistas.

“Vejo a outra ponta dessa discussão. Dos leitos de UTI, dos pacientes com paraplegia, tetraplegia, dos mutilados e acidentados no trânsito”, ressalta Braga, que é um dos fundadores da União dos Ciclistas do Brasil (UCB), organização que congrega associações e entidades ligadas ao ciclismo no país. Seu objetivo é promover o uso da bicicleta como meio de transporte, lazer e esporte em zonas urbanas e rurais, além de defender a mobilidade sustentável.

Fernando Braga é cicloativista há quase três décadas – Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Lidar com acidentados renova diariamente as preocupações e ainda trás lembranças tristes para o servidor, como a perda do amigo Pedro Paulo Alves, morto em 2020, depois ser atropelado por um ônibus, aos 55 anos.

A experiência como ciclista não impediu sua trágica partida ao tentar acessar a Ponte Florentino Avidos para chegar a Vila Velha vindo de Vitória. Nos dois sentidos, um trecho perigoso até mesmo para motoristas e pedestres.

“Já enterrei alguns amigos ali. O último foi o Pedro Paulo, o Pepê, às vésperas do réveillon de 2020. Eu passava por ali todo dia. Por muitos anos foram pelo menos quatro ou cinco travessias diárias. Até hoje não tem sinalização horizontal, vertical, avisando da presença de bicicletas”, recorda o professor, que citou ainda o caso da modelo Luísa Lopes, atropelada e morta aos 24 anos enquanto atravessava a Avenida Dante Michellini, na Praia de Camburi, no último dia 15 de abril.

“Quando um ciclista está fora da ciclovia é muito fácil para um leigo taxá-lo de folgado, mas não se perguntam o por que. Isso mostra que os projetos são feitos quase sempre por quem não usa bicicleta. Botam a estrutura muitas das vezes para que o ciclista não atrapalhe a fluidez veicular. É muito fácil dizer que a culpa é da falta de educação”.

Uma das principais críticas de ciclistas como Fernando Braga mira a falta de continuidade na malha cicloviária. Se hoje em dia há muito mais rotas do que existia há alguns anos, interligá-las ainda é um desafio. Por exemplo, as ciclovias de Vitória, Vila Velha e Serra, em que boa parte está localizada na orla. O cerne da questão é como chegar até elas.

“Essas cidades têm ciclovias muito bonitas na orla, mas como você chega ali? Você tem que pedalar até lá numa disputa hostil com automóveis por espaço. Tem ciclovia que liga nada a coisa nenhuma. Simplesmente acabam. Dali pra frente eu faço o quê? Sou abduzido?”, indaga Braga.

Ciclovia da Vida, na Terceira Ponte, em trecho da Capital – Foto: Hélio Filho/Secom/Governo do ES

Terceira Ponte

O questionamento já alcança também a ciclovia da Terceira Ponte, cujas obras para sua construção tiveram início em julho do ano passado. De acordo com a Secretaria de Estado de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi), a chamada Ciclovia da Vida já tem estrutura fixada por 2,5 km dos cerca de 3,3 km de extensão da principal conexão entre Vitória e Vila Velha. A pista será de uso gratuito e terá cartão para controle de fluxo.

O Consórcio Ferreira Guedes Metalvix é responsável pelas obras, orçadas em R$ 127 milhões, e o prazo para conclusão dos trabalhos está mantido para maio de 2023. “Quando estiver finalizada, a Ciclovia da Vida vai se conectar com as ciclovias existentes tanto em Vila Velha como em Vitória”, informou em nota a Semobi.

“Graças a Deus, o governo entendeu o que falávamos e esqueceu a ideia da Quarta Ponte, que só iria ligar engarrafamentos. Essas grandes obras viárias só fazem você chegar mais rápido em antigos gargalos”, pontua Fernando Braga, que cobra uma ligação satisfatória à malha cicloviária dos municípios.

Mobilidade sustentável

Apesar das críticas, o ciclista reconhece os altos custos para cobrir uma cidade inteira de ciclovias, algo que não se consegue da noite para o dia. É um processo lento de amadurecimento, dependente de vontade política para a efetiva transformação do espaço urbano. Nesse sentido, usuários de bicicletas como meio de transporte vão continuar por anos a fio disputando espaço em total desvantagem com carros, motocicletas e ônibus.

“Dentro dos bairros não têm infraestrutura cicloviária nenhuma. Espaço é para estacionamento. Infelizmente, as pessoas, são relegadas a segundo, terceiro, quarto plano. Isso não é exclusivo da infraestrutura cicloviária nas cidades capixabas, mas ciclovia aqui é entendida somente como espaço de lazer, cuidado com a saúde, para ir à praia. Não se pensa como transporte e mobilidade sustentável”, acrescenta.

Tantos anos tendo bicicleta como principal meio de transporte fizeram Braga criar casca. O carro na garagem é usado quase que exclusivamente para as longas viagens que antes ele fazia pedalando.

“Estou com 62 anos, já maltratei muito a carcaça. Tenho problema crônico de coluna e preciso de uma cirurgia que é muito invasiva, com altos riscos que podem levar até a paraplegia, por exemplo. Não tenho mais o gás que tinha de ir até o Rio de Janeiro, Porto Seguro. É um prazer que fica na saudade. Já tive a minha cota”, conclui.

Serra

Parque da Cidade, em Valparaíso, é cortado de ciclovias – Foto: Gabriel Lordêllo/Arquivo PMS

A cidade detentora da maior malha cicloviária da Região Metropolitana da Grande Vitória é a Serra. Com 71,62 km construídos, dos quais 20 km nos últimos 10 anos, o município tem ainda outros 13,12 km em fase de construção pela própria administração municipal e também pelo governo do Estado.

De acordo com o Departamento de Trânsito, vinculado à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur), serão investidos mais de R$ 20 milhões até o final de 2023. As obras em curso contemplam os seguintes trajetos:

  • Av. Norte Sul – trecho em frente ao Terminal de Laranjeiras (0,40 km);
  • Av. Talma Rodrigues Ribeiro – trecho rotatória do Hospital Dório Silva à Rotatória da Viminas – Civit II – mais duplicação da ciclovia da Av. Copacabana (1,86 km);
  • Contorno de Jacaraípe – Trecho entre Av. São Paulo (continuação da Av. Minas Gerais em Lagoa de Jacaraípe) ao bairro Areia Branca, em Nova Almeida (10,86 km).

A intenção da prefeitura é triplicar a extensão da malha. Somados os trechos com obras já iniciadas e os que ainda vão começar a ser construídos, tanto em vias já existentes quanto nas vias planejadas, Serra deverá ganhar 173,91 km de ciclovias ou ciclofaixas. Confirmadas as pretensões, o município terá 245,53 km de vias exclusivas para ciclistas.

Vitória

Avenida Leitão da Silva e ciclovia central – Foto: Victor Martinuzzo/Movimento Onlinelovia liberada – Foto: Victor Martinuzzo

A malha cicloviária de Vitória tem 70,71 km de extensão e é composta por ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas (trechos em que bicicletas e veículos motorizados trafegam juntos), além das calçadas compartilhadas (espaço sobre a calçada ou canteiro central, destinado ao uso simultâneo de pedestres, cadeirantes e ciclistas montados).

A intenção da prefeitura é ampliar a malha até a formação de um anel cicloviário. Para a administração municipal, esse modelo vai permitir que os cidadãos se desloquem de bicicletas para qualquer ponto da cidade.

Está prevista a implementação de aproximadamente 15 km de ciclovias. As obras planejadas incluem complementação e melhorias da ciclovia que liga o Tancredão, no bairro Mário Cypreste, à Praça dos Namorados, na Praia do Canto. A intervenção cruzará importantes avenidas de intenso fluxo, tais como Nossa Senhora dos Navegantes, Marechal Mascarenhas de Moraes (Beira-mar) e Getúlio Vargas, num percurso de cerca de 9 km.

Avenida Rio Branco

Trecho exclusivo para ciclistas ficará no canteiro central, para onde serão deslocadas as vagas de estacionamento da avenida – Crédito: Divulgação/CMV

Uma das principais vias da Capital, a Avenida Rio Branco passará por um processo de reurbanização que inclui a construção de um corredor exclusivo para ciclistas, semelhante ao trecho que já existe na avenida. O novo trajeto irá cortar os bairros Praia do Canto e Santa Lúcia e ligar a Avenida Leitão da Silva à Ponte Ayrton Senna.

O investimento anunciado é de R$ 3,7 milhões e será destinado, entre outras coisas, à construção da ciclovia no canteiro central da via, iluminação, instalação de gradil para proteção dos ciclistas e de sinalização horizontal e vertical com placas e semáforos. A entrega dos equipamentos está prevista para o segundo semestre de 2023.

Vila Velha

Ciclovia na orla de Vila Velha durante processo de revitalização da sinalização horizontal – Foto: Divulgação/PMVV

Atualmente, Vila Velha possui 58,8 km de ciclovia instalados e a expectativa é de que, até o final de 2022, chegue a 62,1 km. As metas, porém, são mais ambiciosas: que o município tenha a maior ciclovia de todo o Espírito Santo.

Serão 27 km de extensão margeando toda faixa litorânea canela-verde, que hoje tem 8 km de ciclovia entre as praias da Costa e Itaparica. O novo corredor permitirá aos ciclistas percorrer mais 19 km até a orla do bairro Nova Ponta da Fruta.

De acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Mobilidade (Semdu), o processo de contratação de empresas para execução do projeto está em fase de elaboração. O valor que será investido não foi informado.

Por enquanto, estão em curso as obras para construção de novas ciclovias em Cidade da Barra, São Conrado e nas avenidas Gaivotas – no bairro Pontal das Garças –, Sempre Viva e União – no bairro Darly Santos.

Cariacica

Os ciclistas de Cariacica têm à disposição cerca de 21 km de vias para pedalar. A malha se estende, principalmente, pelas rodovias José Sette, Leste Oeste e BR-101 (faixa compartilhada com pedestres) e pelas avenidas Alice Coutinho e Vale do Rio Doce (na orla do município).

Parte dessas vias para deslocamento por bicicletas contempla também o bairro Nova Brasília, na rua da Frincasa, percurso em que foram concluídas recentemente obras de pavimentação, urbanismo e iluminação de LED. Outro trecho foi entregue na avenida Bernardo Simmer, no bairro Formate.

A Secretaria Municipal de Obras (Semob) informou que pretende, se possível, implementar novas ciclovias em toda e qualquer intervenção que realizar nas vias públicas da cidade, sejam obras essas de reforma ou construção. Por fim, a prefeitura informou que está em fase de discussão um novo projeto para desenvolvimento do cicloturismo em Cariacica.

“A prática do cicloturismo se encaixa na realidade de Cariacica. O turismo de natureza abrange segmentos de mercado que promovem o aproveitamento sustentável dos atrativos naturais, a exemplo o turismo de aventura e o turismo rural, modalidade que está inserido o cicloturismo, na qual os ciclistas podem desenvolver uma relação particular com as áreas visitadas e comunidades”, diz o comunicado.

Maior ciclovia do Brasil

Crédito: Divulgação/Governo de SP

O estado de São Paulo terá nos próximos anos a primeira ciclovia de longa distância em rodovias do Brasil. Com 57 km de extensão, a Ciclovia dos Bandeirantes ligará a capital paulista à Itupeva, seguindo o trajeto da Rodovia dos Bandeirantes. O projeto foi orçado em R$ 219 milhões e prevê a entrega da maior ciclovia do país.

O anúncio foi feito pelo ex-governador João Doria, em março deste ano. Ao término, a ciclovia contará com seis passarelas para transposição na rodovia, de modo que o ciclista não precisará cruzar a rodovia para chegar até sua faixa exclusiva.

A expectativa é de que a ciclovia melhore a mobilidade urbana entre as regiões metropolitana de São Paulo e Jundiaí – da qual faz parte o município de Itupeva.

Crédito: Divulgação/Governo de SP
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