sexta-feira, 24 de junho de 2022
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Jacaraípe: histórias de pescador, surfe e coxinhas de meio quilo

Entre histórias de pescadores, moquecas famosas, coxinhas de meio quilo, surfe e blocos de Carnaval, o Balneário de Jacaraípe cresceu cercado de histórias. O que era apenas uma vila pesqueira até meados da década de 60, se tornou uma das praias mais frequentadas pelos turistas capixabas na época do Verão. 

Para conhecer melhor a Região de Jacaraípe, a reportagem do Jornal MovNews passou um dia no local, onde conversou com lideranças municipais, moradores antigos, comerciantes e gente que se orgulha de morar em um dos lugares mais antigos do município da Serra. E você sabia que a Região é formada pelo conjunto de 28 bairros? 

De acordo com dados da Prefeitura da Serra, a região da Grande Jacaraípe é formada pelos seguintes bairros: Praia da Baleia; Castelândia; Portal de Jacaraípe; Conjunto Jacaraípe, São Pedro; Parque Jacaraípe; São Patrício; Estância Monazítica; Jardim Atlântico; Costa Dourada; Residencial Jacaraípe; Bairro das Laranjeiras; Enseada de Jacaraípe; Praia da Capuba; Costa Bela; São Francisco; Jacaraípe e Lagoa do Juara. Cada um deles com suas particularidades. 

Moradora da região há 34 anos, a presidente da Associação de Moradores de Castelândia, Luciana Pacheco, explica que, após os indígenas que habitavam a região, a família do português “João Luiz Castelo” foi uma das primeiras desbravadoras do local.

Presidente da Associação de Moradores de Castelândia, Luciana Pacheco. Foto: Maria Clara Leitão
Presidente da Associação de Moradores de Castelândia, Luciana Pacheco. Foto: Maria Clara Leitão

“Jacaraípe teve o seu início com os primeiros habitantes da região, que foram os índios tupiniquins e, posteriormente, os Temiminós. Em seguida foi cedida uma sesmaria, do rio que tem o mesmo nome do bairro, a um português de nome João Luiz, que deu início a colonização do lugar, formando em seguida vila de pescadores e o resto é só história”, destaca Luciana. 

“Histórias de pescador”

A região de Jacaraípe era originalmente uma pequena vila de pescadores. Os trabalhadores mantinham suas barcas à beira do rio Jacuné, que nasce em um enorme complexo de lagoas situadas a alguns quilômetros de distância do litoral. O bairro ocupava a área próxima à foz e às margens do rio. 

Com o passar dos anos, a pesca foi se ampliando para outras regiões, como o “Mercado de Peixes”, localizado em frente à Praça das Águas, na Avenida Rômulo Castelo, que abriga algumas das peixarias famosas do local. 

Mercado de Peixes em Jacaraípe. Foto: Maria Clara Leitão

A peixeira Leonidia de Alves Melo, de 67 anos, mora na região de Jacaraípe desde os 12 anos e trabalha há 25 anos com a venda de pescados. A tradição no ramo começou a partir do trabalho do cunhado na pesca. O marido também virou sócio  e a incentivou  a entrar para o mercado de trabalho. 

Peixeira Leonidia de Alves Melo, de 67 anos, mora na região de Jacaraípe desde os 12 anos. Foto: Maria Clara Leitão

“Vi isso tudo crescer muito. Começou do lado “direito da ponte”, onde o comércio e o progresso chegaram primeiro, poderia ser melhor para a gente, está faltando turismo. A nossa sorte é que não dependemos exclusivamente dele para viver, está bem atrasado”, destaca com saudosismo. 

No mercado famoso da região, também encontramos com o senhor Jacinto Elias Ramos, mais conhecido como “Tiririca”. Ele trabalha com a pesca desde os 12 anos, natural da Bahia, há 20 anos adotou Jacaraípe como sua segunda casa. 

No mercado famoso da região, também encontramos com o senhor Jacinto Elias Ramos, mais conhecido como “Tiririca”.

“Antes eu pescava, mas era na Bahia. Tem vez que a gente some aqui de tanto navegar, porque não é só ir ali e jogar o anzol que o peixe vem, temos que ter muita paciência. Além disso, gastamos com óleo, linha, anzol e manutenção do barco”, desabafa “Tiririca”.

Outro lugar famoso para a pesca da região pode ser encontrado na antiga vila de pescadores de Jacaraípe. Lá está localizada a Lagoa Juara, que impressiona pela beleza, com extensão de exatos 6 quilômetros e um vasto volume d’água. No local funciona um restaurante e uma peixaria, mantidos pela Associação de Pescadores da Lagoa Juara, que tem como prato principal a Tilápia.

Lagoa Juara na Serra abriga a Associação dos Pescadores da Lagoa do Juara (APLJ). Foto: Maria Clara Leitão

De acordo com o fundador da Associação dos Pescadores da Lagoa do Juara (APLJ), Elias Floriano Efgem, mais conhecido como “Seu Elias”, de 72 anos, a região, que encanta pelas belezas naturais e peixes cultivados por meio de tanques muito saborosos, também enfrenta seus momentos de dificuldades. 

Fundador da Associação dos Pescadores da Lagoa do Juara (APLJ) Elias Floriano Efgem. Foto: Maria Clara Leitão

“A nossa tilápia dos tanques é muito famosa e muito saborosa. Mas com a abertura do canal do rio Jacaraípe, as enchentes acabaram, mas, por outro lado, o pescado que mantém a nossa lagoa também caiu muito. Isso mostra a importância de preservamos a natureza para que as futuras gerações consigam desfrutar da boa qualidade do rio”. 

Gastronomia é famosa na região

Comida com muito sabor, tempero e variedade é o que não falta no bairro. A região é muito bem servida de bares, restaurantes e estabelecimentos para todos os gostos do freguês. 

Um point famoso da região com a sua culinária “inusitada” é a “Coxinha da Gaúcha”, localizada na “Lanchonete da Gaúcha”, na Praia de Solemar. A dona do estabelecimento, natural do Rio Grande do Sul, Cléria Schneider Pontes conta que abriu o quiosque no ano de 2003 e logo percebeu que um diferencial faria toda a diferença entre a clientela. 

A “coxinha da gaúcha” é famosa pelos surfistas locais. Foto: Leonardo Sales

“Os surfistas após as ondas sentiam sempre muita fome e, com isso, pensei ‘por que não aumentar o tamanho dos salgados como a nossa coxinha’. Dessa forma surgiu o salgado com meio quilo e fazemos até mesmo com um quilo para encomenda”, destaca. 

Tamanha a fama do salgado da Gaúcha, que muitos deles foram levados para outros estados como: Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, chegando até mesmo em outros países. 

“Essa coxinha já foi parar até nos Estados Unidos, congelada em uma caixa térmica é claro, mas isso só mostra o quanto ela é um sucesso de vendas. E cabe destacar que também fazemos a de um quilo por encomenda”, descreve orgulhosa. 

Restaurante

Quando o assunto é representar a culinária capixaba, o balneário de Jacaraípe não deixa a desejar. No restaurante “Recanto Miramar” , é encontrado um belo espaço às margens do rio Jacaraípe com a natureza ao seu alcance.

Restaurante Miramar é famoso pelas moquecas. Foto: Maria Clara Leitão

Proprietária do espaço que funciona desde 1981, Creuzenice da Silva Resende, de 59 anos, conta que como tudo na vida a história do restaurante é repleta de altos e baixos. Mas a paixão pelo espaço, que tem a moqueca como cargo chefe, foi à primeira vista. 

Creuzionice da Silva Resende, de 59 anos, dona do restaurante Miramar. Foto: Maria Clara Leitão

“Quando vi esse lugar sabia que seria aqui, mesmo que na época fosse muito diferente. O chão ainda era de terra, não tinha nada ao redor, nenhuma dessas construções. Comecei aos pouquinhos, tive até um bar perto da praia que não dava  muito certo, cheguei a fazer promessa para Deus para voltar para esse lugar e deu no final ele me iluminou”, destaca.

Ainda segundo “Creuza”, como é chamada, após a promessa, ela voltou para a casa, onde está instalado o restaurante. Aos poucos começou a fazer marmita, comidas para hóspedes de um hotel próximo da região, até a inauguração do espaço como o restaurante atual.

“Eu tenho o espírito do trabalho, acredito que a partir dele se consegue tudo e, a partir disso, fomos crescendo, sempre focada com o bem estar e o melhor para os clientes”, acrescenta.

“O point do Surfe”

A orla, toda pavimentada e iluminada, conta com diversos quiosques. Mas a prática de esportes é uma constante nas areias e nas águas. Conhecida e disputada pelos adeptos do Surf e do Bodyboard por suas imensas ondas, Jacaraípe é um convite para os surfistas. 

Lúcio Firmino da Silva, de 46 anos, mais conhecido como “Ferroz”. Foto: Maria Clara Leitão
Lúcio Firmino da Silva, de 46 anos, mais conhecido como “Feroz”. Foto: Maria Clara Leitão

No local mais movimentado do surf é possível encontrar Lúcio Firmino da Silva, de 46 anos, mais conhecido como “Feroz”, um apelido carinhoso dado pelos outros surfistas por “rasgar as ondas”. Ao lado da sua esposa, Beatriz Ferreira de Almeida, de 46 anos, a “Bebel”, eles comandam o espaço que atua diretamente no surf.

“Bebel” e “Feroz” atuam juntos na comunidade de Jacaraípe. Foto: Maria Clara Leitão.

“Aqui atuamos com o aluguel e o empréstimo de pranchas, roupas, parafinas, quilhas e strep necessários para o surf. Também temos o Pezão, que  conserta fibras de pranchas, um personal surf training e, além disso, uma lanchonete comandada pela ‘Babel'”, destaca. 

O surfista ainda destaca a grande esperança que tem no esporte. Principalmente depois que a modalidade teve a sua estreia nos Jogos Olímpicos de Tóquio, com o Brasil levando para a competição dois campeões no esporte.

“Agora a modalidade é uma coisa séria, mas ainda estamos nessa luta por todo o nosso amor ao esporte. Cada garoto com uma prancha na mão em um projeto social, é menos um com uma arma na mão no meio da criminalidade das ruas”, finaliza.

Bloco Ratazanas é a sensação

Um dos blocos mais tradicionais do Espírito Santo teve o seu início nas areias de Jacaraípe. Fundado em 1972, por Rogério Mussielo, o “Batata”, inspirado no ‘prostíbulo’ de Carapebus na década de 70, com o objetivo de animar o Carnaval em Jacaraípe. 

Em entrevista ao Jornal MovNews, o vice presidente do bloco, Carlos Eduardo da Lima Silva, “Betão”, de 63 anos, relembra que o bloco anima com muita alegria o Balneário. 

“Se não temos o Carnaval não temos o Balneário de Jacaraípe. Aqui é o local onde as famílias e as pessoas tem a certeza que poderão brincar na folia durante todo o feriado. Somos o único bloco que toca em todos os quatro dias da festa”, destaca com orgulho. 

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