quarta-feira, 18 de maio de 2022
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“Uma tristeza inexplicável”, diz médica que entrou nos escombros para resgatar jovem em Vila Velha

Mesmo diante de toda a dor e sofrimento registrados durante os resgates de uma família soterrada em uma casa que desabou em Vila Velha, a médica socorrista Ananda Sampaio Rampinelli, de 34 anos, se destacou pela bravura, amor ao próximo e profissionalismo.

O resgate da adolescente Sabrina Morassuti, de 15 anos, que estava sob os escombros do prédio de três andares que desabou nesta quinta-feira (21), foi o mais dramático. Durante todo o tempo em que Corpo de Bombeiros e socorristas do Samu trabalharam havia a esperança de tirar a jovem do local ainda com vida.

Fato que acabou não acontecendo e, após mais de 12 horas de buscas, a confirmação do óbito de Sabrina foi feita por volta das 21h. Um dia que ficará marcado na vida da médica socorrista Ananda Sampaio Rampinelli. 

Mesmo atuando na função há seis anos, a médica revelou que o episódio traz sentimentos como impotência e tristeza, difíceis de serem superados a curto prazo.

“A gente fica com aquele sentimento de impotência, né. De ‘meu Deus, teria algo para gente fazer?’. Mas a gente não conseguiu chegar até ela. É uma tristeza, um sentimento de incapacidade muito grande depois que a gente viu que ela tinha ido a óbito. E antes disso, foi o desespero da gente tentar fazer algo prá dar um conforto ou tentar prolongar o tempo dela e fazer com que ela ficasse mais estável, diante de toda a gravidade”.

Ananda chegou ao local do desabamento, no bairro Cristóvão Colombo, às 16h e saiu de lá às 20h. De acordo com a profissional, ainda mais tempo era necessário para conseguir salvar Sabrina. Muito ferro retorcido, além dos três andares de escombros dificultaram ainda mais a tarefa.

“Eram três colunas que estavam sobre ela. Os bombeiros tinham dado uma estimativa de mais ou menos umas três horas para tirar ela de lá. Os escombros que estavam em volta eram bem pesados e de difícil acesso, com vigas e vergalhões que impediam a gente de entrar. Se a gente conseguisse mantê-la viva mais umas quatro horas daria tempo de resgatá-la com vida.”

Médica Ananda Sampaio conta detalhes do resgate da jovem Sabrina Morassuti. Foto: Reprodução/TV Gazeta.

Confira nesta entrevista exclusiva ao Portal MovNews mais detalhes do resgate da jovem Sabrina Morassuti e da rotina da médica socorrista Ananda Sampaio Rampinelli.

Ida para o local do desabamento

“A gente já vai pensando no que vamos fazer lá, imaginando sempre o pior, as cenas mais graves, pensando no pior e que a gente tenha tudo em mãos quando isso acontecer. Já tínhamos acompanhado um pouco na TV, pouca coisa, porque estávamos em outros atendimentos. A gente só soube que estava tendo um contato de voz com a Sabrina quando a gente chegou lá.”

Conversa com Sabrina

“Ela estava nervosa, em alguns momentos pedia para sair de lá, então tentamos acalmá-la e evitamos perguntar sobre lesões. A gente sabia que ela estava com um pouco de dor, por isso tentamos buscar uma veia nela. O ideal era ela ficar calma, em silêncio para poupar o consumo de oxigênio lá dentro também”.

Entrada nos escombros

“O início do buraco era um pouco maior, mas para chegar nela ele afunilava, era bem pequeno mesmo. Tinha muito concreto, areia, muitos vergalhões, mas conseguimos entrar um pouco, meio que deitados, de lado, só colocando o rosto e a mão. Não tinha como entrar por completo, porque era bem pequeno mesmo”.

Ainda havia risco de desabamento?

“Era bem superficial, se desabasse não cairia em cima da gente, só em alguma parte. Por mais que a gente sempre queira fazer, ajudar, entrar, isso só foi feito porque os bombeiros estavam ali e nos deram condições de fazer isso, nos disseram que existiam condições de fazer isso. Se eles não tivessem dado esse aval a gente não teria entrado. O risco existia, obviamente, mas permitia uma tentativa da gente ajudar”.

Tubo de oxigênio utilizado para tentar salvar a jovem Sabrina. Foto: Reprodução/TV Gazeta.

Momento da morte de Sabrina

“Eu fiquei muito emocionada, fiquei rezando bastante, mas naquela hora eu vi que não tinham mais sinais vitais. Foi num momento que não tínhamos mais resposta e que percebemos a gente tinha perdido ela. Ficamos bem abalados porque ela conversava com a gente. E de repente você para de ouvir, você não consegue ver, não consegue chegar até ela, foi bem comovente. Deu uma tristeza inexplicável”

“Só o laudo do IML vai dar a causa do óbito mesmo. Ela morreu por volta das seis da tarde, ainda sob os escombros, mas acredito que tenha sido algo relacionado a respiração que faltou ali pra ela, asfixia”.

Como é trabalhar no SAMU?

“O SAMU é um trabalho pra quem quer, pra quem gosta e pra quem ama. Não só pra médico, mas para os enfermeiros, os condutores socorristas, os técnicos. É uma rotina estressante mesmo, a gente lida com muitas questões adversas, com situações tristes. Essa foi uma situação muito triste também, mas não foi a única. Nós somos capacitados a conseguir manter um equilíbrio diante disso tudo, ter uma postura diante dessas situações. Estamos preparados para situações com caos, em que as pessoas estão com o psicológico bem abalado, temos treinamento de desastre e sabemos como agir em desastres com muitas vítimas como foi esse”.

Médica socorrista Ananda Sampaio Rampinelli. Foto: Reprodução/Instagram.

Mensagem para quem deseja trabalhar no SAMU

“O SAMU é, acima de tudo, amor e entrega. Eu falo para todo mundo que o dia em que você parar de se comover e de se importar com o sentimento ou com o que você está vendo, você está na profissão errada, você está no momento errado, é hora de sair. Porque a gente tem que estar entregue como profissional e como ser humano. A minha mensagem é entrega. Se você não se importar com aquelas vidas, é hora de você parar. Enquanto a gente se importar com cada vida, a família e todo o entorno, a gente tem certeza que está no lugar certo, fazendo o nosso melhor”.

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