sábado, 23 de abril de 2022
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Polêmica: Cartaz de “Procura-se” apoiado pela Secult-ES causa revolta

Não pegou nada bem um cartaz de divulgação apoiado pela Secretaria de Cultura do Espírito Santo (Secult) intitulado “Procura-se compositoras capixabas, recompensa de R$ 2,5 mil”.

O cartaz vai ainda mais longe: P.S Cuidado ao abordá-las! As procuradas estão armadas até os dentes de ideias revolucionárias”.

O cartaz é uma convocação para que as mulheres compositoras capixabas possam se inscrever, lançar e expor seus trabalhos dentro de um projeto que recebeu recursos do Governo do Estado por meio do Fundo de Cultura. “A recompensa” seria o cachê pago às compositoras para mostrarem sua obra.

Num Estado que registra índices altíssimos de feminicídio –  em 2020 foram 26 mulheres assassinadas e em 2021 o número saltou para 34 – o cartaz soa como escárnio para algumas pessoas, principalmente para as mulheres.

Universo machista

Para a publicitária Kátia Moreira, a peça “é de péssimo gosto, representando um conteúdo bélico, com péssimo time de divulgação. Não bastasse a violência contra as mulheres, ainda estamos em plena guerra, né? Que pode tomar proporções mundiais. Tudo o que a gente não precisa, nesse momento, é de fomentar temáticas bélicas”, aconselha.

Já a musicista Antônia (Toninha) Coelho, que se apresenta nas noites capixabas, a pobreza da peça reflete todo o universo machista do designer que criou o cartaz.

“Não é possível que, com tantos talentos femininos no Espírito Santo, tenhamos que ser caçadas como bichos e com recompensa ainda por nossa cabeça. Pegou mal. Eu não me inscreveria num edital desses nunca, piada de péssimo gosto. Quem fez e aprovou precisa se explicar ao público, já que esse dinheiro vem de nossos impostos”, bradou.

E é isso mesmo. O dinheiro para o cartaz e para a suposta “recompensa” vem dos cofres públicos, por meio dos impostos do cidadão. De acordo com uma assessora de imprensa da Secult-ES por telefone, o dinheiro faz parte de um Fundo para a Cultura e cabe ao recebedor/vencedor da verba fazer a divulgação da peça ou evento.

Já por e-mail, a assessoria limitou-se a afirmar numa nota padrão: “Vamos avaliar sua denúncia, investigar e encaminhar internamente. Obrigada pela preocupação em avisar! Estamos sempre com o objetivo de divulgar a arte e a cultura produzida no Espírito Santo. Um Abraço, Aline.”

Para a musicista Fernanda Assis, o cartaz traz uma mensagem perigosa: “Acho que não somos procuradas, principalmente porque estamos sempre querendo mostrar nosso trabalho, nosso valor, mas infelizmente não somos vistas e ouvidas da maneira que gostaríamos, que merecemos. Achei agressiva a abordagem, pois não estamos “armadas”, mas sim, temos que viver sempre na defensiva, pelo simples fato de sermos mulheres compositoras, cantoras ou qualquer outro cargo que poderia ser ocupado por qualquer outro gênero, mas não conseguimos, e temos que tentar provar além da conta, nosso talento, ou dom”, afirma chateada.

Já para o advogado André Moreira a peça, que deveria ser um um respiro para as compositoras na pandemia, quando muitas mulheres deixaram de tocar por medo e falta de espaço, acabou se tornando um instrumento de diminuição do sexo feminino que, no imaginário machista, precisa ser caçada para ser premiada.

“Absurdo completo, que fomenta o ódio para com quem faz poesia e ilumina o mundo com notas musicais. Ideias revolucionárias não são armas. São ferramentas de construção de uma sociedade justa e igual. Por isso “Revolução”, que a mudança de um estado de coisas para outro diferente, libertador e acolhedor. Essa peça publicitária é de péssimo gosto”, rebate.

Uma das responsáveis pela aprovação da peça, a musicista e ativista LGBT, Bella Nogueira, afirma que tudo não passa de uma interpretação de cada um. Ela afirma que a mensagem é justamente ao contrário e que fomenta o empoderamento da mulher.

“Como sou mulher, compositora e feminista, não entendi o chamado dessa forma. A frase “armadas de ideias revolucionárias” para mim traz o empoderamento das compositoras do estado, que tem menos acesso aos palcos em festivais, motivo inclusive do cartaz. Eu gostaria mesmo de me colocar à disposição das mulheres que se sentiram de qualquer forma e em qualquer nível afetadas pelo post, que tinha objetivo totalmente contrário ao que está sendo relatado. Seria contra minha natureza, inclusive como militante da causa – ainda mais porque sou parda e LGBT , em acréscimo – incitar qualquer sensação que não fosse de empoderamento. Sigo à disposição”, defende-se.

Caso parecido

Em 2017, durante o Governo de Paulo Hartung, uma outra peça publicitária de gosto duvidoso tomou conta das redes. Era o Dia do Jornalista e a Secretaria de Comunicação mandou essa pérola:

“Hoje é o dia do batedor de release. Parabéns amigos jornalistas. Hoje é o nosso dia”. Para estampar a frase, o responsável pelo post publicou uma montagem em que um macaco, ao lado de um computador, simula o que seria um jornalista digitando um texto.

A peça pegou muito mal no meio jornalístico e de assessoria de imprensa, forçando a então secretária da pasta a pedir desculpas nas redes sociais.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Esse aí é um problema de pessoas alheias ao ramo serem chamadas pra produzir coisas sobre as quais não têm qualquer conhecimento.

    Foi a mema idiotice que algum idiota no Governo Paulo Hartung praticou com aquela frase altamdente cretina, citada pelo repórter Alexandre Damazio na matéria:

    – “Hoje é o dia do batedor de release. Parabéns amigos jornalistas. Hoje é o nosso dia”.

    Caraaajoooo, o idiota que escreveu isso daí considera jornalistas em geral como “batedores de rilize”. Certamente, um idiota que acha que só existe jornalista em Assessorias de Imprensa.

    Se me chamassem pra prodiuzir a pela, certamente eu teria feito uma peça inteligente – falsa modéstia à parte – chamativa, valorizando nossas compositoras e fazendo uma graça pra elas.
    Ahhh, sim, mas eu não sou um idiota militante. Minha artrose só alcançou meu joelho.
    E eu não penso com meu joelho kkk…Abaixo os medíocres de plantão (Don Oleari).

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