quarta-feira, 29 de junho de 2022
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Política capixaba II – O que é isso, PT?

Fernando Gabeira, hoje repórter da Globo News – meu velho e querido companheiro de lutas libertárias durante os anos de chumbo -, quando não quer discutir um ácido assunto político ou sobre a paixão do futebol faz um inusitado convite ao interlocutor: ”Vamos nadar. A água está uma maravilha!”

Mas, naqueles tempos estranhos, quando o Brasil recebia de volta os que ”partiram em um rabo de foguete”, o ex-guerrilheiro Fernando Gabeira lançava o livro ”O que é isso, companheiro?”

Na ocasião, o trouxemos ao Porto de São Mateus para o Festival de Verão, em fevereiro de 1980, quando o Partido dos Trabalhadores – PT vinha ao mundo na capital paulista.

É óbvio que, na época, Gabeira ainda não fugia desses temas polêmicos e ou apaixonantes, mas fez uma previsão sombria sobre o surgimento de um novo partido de esquerda:

”Espero que não seja mais um partido de cúpula!”

Dias depois, criamos o PT capixaba e, principalmente, em São Mateus, onde fui o seu primeiro secretário e vereador constituinte.

Gabeira, vinha do exílio e incitava muitas mudanças de comportamento e atitudes na vida brasileira, e o que falava tinha a força de um tsunami.

Irreverente e moderno, foi desfilar de sunga de tricô na praia de Guriri, antes dos demais mineiros descobrirem a paradisíaca ilha do litoral norte capixaba. Foi um escândalo na aristocrática cidadezinha quase perdida no anonimato do país.

Com a roda do tempo, Gabeira disputou a prefeitura do Rio de Janeiro pelo PT e perdeu as eleições por um corpo de diferença, na reta final, por conta de um ”comentário descuidado” e um ”ponto facultativo”. Pura maldade das elites políticas cariocas e das velhas cúpulas partidárias contra aquele doce e romântico ex-guerrilheiro.

Como secretário de Estado da Cultura do Espírito Santo, no governo Vítor Buaiz, realizamos a primeira gestão da Cultura do Partido dos Trabalhadores, enquanto Gabeira se mudara para o Partido Verde – PV, mas mantinha a mesma visão crítica aos ”partidos de cúpula”.

Saímos quase em bloco do PT e ingressamos no PV, quando também realizamos a filiação do ex-governador Vitor Buaiz – trouxemos Alfredo Sirkis, Ciro Gomes, José Luís Penna, além de Fernando Gabeira e outros militantes verdes – e, mesmo assim, todos os petistas foram mantidos em seus respectivos cargos no novo governo Vitor Buaiz. Um ato de imensurável comprometimento para com o campo democrático.

Na ocasião voltei a perguntar a Gabeira sobre militância e cúpula:

Será que continuaremos cometendo os mesmos erros?

Com enorme sabedoria, Fernando Gabeira respondeu:

”A militância de partido de esquerda no Brasil continuará propondo uma coisa e a cúpula fazendo outra, não será diferente!”

Obviamente que Gabeira não mais usava a sunga de tricô, mas continuava um ponto fora da curva no cenário político nacional. Fez enorme sucesso como Deputado Federal, destacando-se no Congresso Nacional com coerência, coragem e voltou ao PT. Decepcionado, se desfiliou pelo mesmo motivo que há muito o incomodava: a divergência da ação política entre militância e cúpula.

Hoje, Fernando Gabeira continua fiel e atento às causas ambientais, além de produzir o melhor conteúdo do jornalismo brasileiro.

Assim, quando vi surgir no cenário político capixaba o delegado Fabiano Contarato achei que poderia ser uma nova versão de Fernando Gabeira, não propriamente pelo possível uso de uma sugestiva sunga de tricô, mas por representar uma oposição à maioria dos políticos convencionais que atuam fora de sintonia com a militância.

Fabiano Contarato se elegeu Senador da República, faz um excelente mandato em Brasília, ingressou no PT – partido atualmente em declínio de densidade eleitoral no ES – e gerou uma enorme, promissora e legítima expectativa na militância petista capixaba que viu nele a possibilidade do frescor de um recomeço e, finalmente, poder voltar ao Palácio Anchieta com um governador comprometido com o campo democrático e os avanços da sociedade civil.

O excelente senador Contarato também se encantou com a militância petista e o namoro virou lua de mel depois de um casamento com comunhão de bens e de princípios éticos que estavam quase perdidos.

Então, incomodado com a enorme possibilidade de perder a reeleição no segundo turno, o espertíssimo governador Renato Casagrande – depois de flertar com Sérgio Moro, se empenhar para eleger um senador de extrema direita, acusar a esquerda capixaba de oportunista e fazer alianças com vários partidos bolsonaristas que atuam na base de seu governo – se aproximou da cúpula nacional do PT e está articulando para passar o ”trator” sobre os sonhos da militância petista capixaba de voltar a ter um legítimo governo de esquerda no Estado do Espírito Santo.

Renato Casagrande, também secretário nacional do PSB, colocou o peso de seu partido contra a militância petista capixaba e incluiu na pauta o ”apoio para Lula” mediante a retirada da candidatura de Contarato ao governo, além disso diz que montará palanque para o ex-presidente no Estado, fala que o ama desde pequenininho e que fará o que nunca fez durante dois mandatos como governador do ES.

O governo de Renato Casagrande é uma cópia falsificada da geopolítica de Paulo Hartung, mas é muito mais concentrador, perseguidor e autoritário. Intervém nos partidos de sua base, faz afagos publicitários nos donos de jornal e TV, além de usar a máquina pública para a reeleição fazendo uma acintosa campanha fora do período eleitoral.

A cúpula nacional do PT está acreditando no seu canto de sereia e a direção estadual, mesmo conhecendo o governador, prefere o risco de ”perder ganhando” à possibilidade de voltar ao protagonismo do comando do Palácio Anchieta e, como tal, está ficando gessada com o velho golpe da ”conjuntura nacional”.

A lamentável conclusão é que o fulgurante e diferenciado senador Fabiano Contarato pode nunca ter sido pré-candidato a governador do ES e a sua indicação foi um balão de ensaio para a cúpula do PT capixaba ter algum ganho na formação do novo governo do PSB.

Contarato recebe afagos generosos da militância petista e, mesmo em núpcias ideológicas e programáticas com as bases do PT capixaba, ele poderá ser excluído do processo da disputa pelo Palácio Anchieta vítima do mesmo modus operandi usado pelo articulado governador Renato Casagrande para tirar do páreo, nas eleições passadas, o senador Ricardo Ferraço que deixou até o experiente Paulo Hartung de mãos atadas. Foi um golpe de mestre!

Agora, a articulação é a mesma e tudo será decidido em Brasília como se não houvesse vontade política, desejos, sonhos e utopias dos coerentes petistas do Espírito Santo. Uma pena!

É lamentável que ainda continuaremos com partidos políticos de esquerda em que a militância é utópica e a cúpula é quem decide.

Então, com mais esse golpe contra o campo democrático, vou parafrasear o genial pensador e meu velho amigo e camarada Fernando Gabeira:

”Vamos nadar. A água está uma maravilha!”

Maciel de Aguiar
Escritor das barrancas do rio que o gentio chamou de Kiri-Kerê.

 

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do MovNews.

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