quarta-feira, 4 de maio de 2022
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Vitória

Ouvir estrelas

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
.

Olavo Bilac

No mundo desencantado, afastados os feitiços, ninfas, sacis e maldições, a ameaça do coronavirus, invisível aos olhos, apenas percebido pelos seus efeitos, doenças e mortes, nos fez afastar o olhar e a escuta do infinito universo. Quando diziam controlados estes minúsculos inimigos, que por séculos, trouxeram as pestes, esperançosos, buscávamos companheiros de vida na imensidão do cosmos. Hoje, assustados, fechamos os telescópios, reduzimos as jornadas nas estrelas e recortamos o campo da observação das coisas. Vivendo um risco de extinção, qual os dodôs e os dinossauros, qual tantas sociedades e cidades que nos legaram ruínas, novas e velhas táticas foram necessárias e empenhadas.

Constrangidos pelo afastamento social, fixamos nossos medos e receios nestes microscópicos organismos, implacáveis, que circulam nos vazios dos ares, invadem ruas, casas, pulmões. Bloqueados, nos afastamos dos outros, amigos, amantes, erguemos muros, barreiras, leis e normas, inventamos vacinas, que pudessem impedir que este mínimo agente, rompesse as defesas e invadisse nossos territórios, corporais e sociais.

De que mundo pertencem estes vírus, obtusos, que por sobrevivência, se transformam continuamente e matam os seus hospedeiros; qual a sina do universo, feita dos mais fortes ou adaptados, que adapta seus organismos por pressão dos ambientes, conflitos e disputas?

Libertos, ao menos em parte, da pressão imediata da pandemia, talvez seja a hora de erguer cabeças, de acender mentes e emoções, (re)encantar o mundo, ouvir o canto das estrelas:

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

Para Cristian Dunker, em Lacan e a Democracia, “quando substituímos as grandes diferenças, – pelas pequenas diferenças de nosso grupo narcísico,…fecha-se o ciclo que une a pulsão da morte com o negacionismo delirante”. Segundo Dunker, neste processo há uma “redução do tamanho do mundo à extensão do nosso espelhamento”. Diante das crescentes diversidades, somente vivendo as experiências do comum, uma experiência estética, uma unidade perdida, uma posse não compartilhada, seremos capazes de criar uma singularidade, “uma forma de comum que não pode ser apropriada como pertencente a um individuo”.

Em momentos de crise e restrições, quando as guerras e as pestes impõem maiores cotas de sofrimento, as artes nomeiam desafios de beleza, limiares de verdade e gozo, delimitam críticas aos tempos de exclusão e desigualdades. Respondem identidades à normativas, resplandecem esplendores às pressões do negacionismo e aos abusos do poder e da mentira.

É hora de aceitarmos as enormes complexidades de nosso pequeno planeta e da imensidão do universo, momento de estarmos atentos às múltiplas falas dos outros, seus inusitados desejos e ressentimentos, acompanharmos o ruído fundo das galáxias e de suas massas escuras, até o limite do big bang e do expandido universo.

Trata-se de um gesto de amor, tentar reconhecer o mais profundo, o indizível, inominável, o mais perto e o mais longe, incluir o afeto e o desejo na escuta do sentimento do mundo, como Drummond:

“Tenho apenas duas mãos

e o sentimento do mundo,

mas estou cheio de escravos,

minhas lembranças escorrem

e o corpo transige na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu

estará morto e saqueado,

eu mesmo estarei morto,

morto meu desejo, morto

o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram

que havia uma guerra

e era necessário

trazer fogo e alimento.

Sinto-me disperso,

anterior a fronteiras,

humildemente vos peço

que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,

eu ficarei

desafiando a recordação

do sineiro, da viúva e do microscopista

que habitavam a barraca

e não foram encontrados ao amanhecer

esse amanhecer mais que a noite.

 

 

 

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