domingo, 8 de maio de 2022
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Vitória

Nada a esconder

O escuro leva.

Encontrei uma sombra

num par de olhos. (Tomas Transtromer)

A transparência, em algum momento, passou a ser um valor universal, a transparência de informações, dados, acontecimentos, a transparência de corpos e espíritos, lançados à apreciação de todos no mundo virtual da internet, à visualização das câmeras de vigilância e na fina materialidade da construção da arquitetura em vidro.

Expostos, translúcidos, vimos nossas mais intimas intimidades e profundos sonhos sendo capturados, investigados, armazenados e transformados em armas de controle, guerra e estímulos ao consumo. O capitalismo da vigilância ocupa todos e tudo, açambarca e rapta cada traço e pedaço de nossas individualidades.

Como em uma caixa de cristal, oferecemos, voluntariamente ou inocentes, em falas, em imagens, em movimentos dos mouses e nos teclados, em nossos deslocamentos e olhares sedutores, em múltiplos grãos, o que em tempos atrás, guardávamos sigilosos, nos nossos interiores, preservando gestos amorosos e afetos delicados, mantendo escondidos segredos herméticos, guardados e levados, ao túmulo e ao esquecimento.

Das janelas, olhos das ruas, acompanhávamos o movimento das pessoas, o deslocamento dos bens, dos tempos, observávamos os eventos comuns e admirávamos os momentos extraordinários, festas e namoros, chuvas e enterros, manifestações e procissões. Como em um camarote, comparávamos trajes, atrasos, traições, e o que não víamos diretamente, histórias contadas e fofocas completavam as informações, falsas ou ficcionais, que anunciavam a vida comum nas cidades, suas pequenas alegrias e tristezas.

Hoje, quando não há mais nada a esconder, as telas substituem as janelas, e quando mais translúcidas estão, mais aparentes as nossas emoções, fraquezas, dúvidas e desejos, e o que nos sobra em interiores esvaziados?

Como estátuas transparentes, submetidos a diagnósticos de imagens, somos fatiados, escaneados, retalhados, órgãos e artérias, coração e crânio, investigados até o limite dos neurônios, qual exangue massa de nervos, sangue e areia, lançados à mesa de corte da operação.

Que ainda temos de tanta importância e valor para que as máquinas de captura, invistam tantos esforços e pesquisas nas suas minuciosas coletas?

Que riquezas ainda persistem no profundo de nosso ser, que guardamos de singularidades e importâncias, para que continuem escavando?

Por séculos, o inconsciente, nosso recipiente natural de lembranças, medos e dores, era um caso privado, negociado apenas com o transcendente, com os deuses e bruxas, investido em confissões sigilosas, de pecados e concedidos perdões, lançados os restos aos céus. A psicologia e a psicanálise, modernamente, buscam recuperar seus fantasmas, em um esforço de reconciliação e cura, mantidos os segredos e sombras, na guarda exclusiva do terapeuta.

Nada temos mais a esconder, saberes, gostos e experiências, segredos e fracassos, antes destinados ao confessionário ou ao sofá do analista.

Nada temos mais a expor de nossas intimas aflições e profundos desejos, que não sabíamos iriam somar, como um ativo do capital, uma massa que sovada, fazem um brilho bolo encantado, em vitrine estampado.

Nada mais contemos, vazios, nada mais somamos, anulados, nada mais podemos oferecer, extraídos, nada mais temos a doar, ofertar, trocar, amar.

Shoshana Zuboff, em seu livro “A era do capitalismo de vigilância”, onde apresenta as duras consequências e os avanços deste processo mundial, seus impactos nos comportamentos humanos e na concentração de riqueza, anuncia algumas esperanças.

Segundo ela, o que está em jogo, “é a expectativa humana de soberania sobre sua própria vida, …

é a experiência interior a partir da qual formamos a vontade de ter vontade, …é o princípio de ordenamento de garantia de nossos direitos como indivíduos e sociedades”.

O que está em jogo é o futuro da democracia, da liberdade e da igualdade.

Conclui desejando “que haja, sim, um futuro digital, mas que ele seja acima de tudo um futuro humano”.

Kleber Frizzera

março 2022

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