terça-feira, 10 de maio de 2022
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Vitória

Caminhando

Eu quero sair
Eu quero falar
Eu quero ensinar
O vizinho a cantar
Vanuza

Por algum tempo, caminhar perdeu a sua substância original, sua forma nômade, quando os deslocamentos e as viagens apresentavam e anunciavam, aos viajantes, novos saberes, gostos, paisagens e ambientes.

Entre dois desejos, da fixação, de se instalar em algum lugar, fundar, plantar, criar raízes, e a vontade de partir, conhecer o mundo, se dividem as vontades e os interesses dos seres humanos. Entre estabelecer-se, erguer a casa, imprimir uma marca permanente, ou viajar para encontrar outros lugares e pessoas e viver livre de limites dos muros e cobertas, a humanidade constituiu estes opostos modos de conhecimentos e experiências das coisas e do transcendente.

Sempre coube aos mais jovens, nas suas jornadas de iniciação, a iniciativa de atravessar o umbral da porta da moradia familiar, enfrentar as imprevisibilidades e desafios dos desconhecidos percursos, e ao fim, retornar, como o filho pródigo, ou deixar-se levar, “sem lenço, sem documento”, e seguir vivendo, vagando, vagabundo, sem fins ou metas.

Nos tempos atuais, de futuros instáveis e distanciamentos sociais da pandemia, estas duas alternativas ou oposições são visíveis no crescimento da diáspora, – o deslocamento, forçado ou não, de um povo pelo mundo-, imigrações causadas por guerras, misérias e sonhos de mudanças, -nunca tantos brasileiros se mudaram para o exterior-, como pelo aumento e a expansão das segregações urbanas, através dos muros visíveis e invisíveis que dividem as cidades.

Quando dispersas e fragmentadas, no espaço metropolitano, as atividades de moradia, trabalho, educação e lazer, e acelerada a vida cotidiana, mais a mobilidade urbana demandou carros e ônibus. Ruas e avenidas, desenhadas para a movimentação de veículos, tornaram-se rápidos ou congestionados eixos de passagens, afastaram os pedestres, são como manchas desfocadas, intervalos vazios, inóspitos, sem sentidos.

Os shoppings centers passaram a substituir e oferecer, nos seus corredores, a experiência do “flaneur”, deslizando entre a multidão, agora transformado em um potencial consumidor, encantado pelas vitrines e o movimento dos transeuntes. Protegidos das mudanças climáticas e estimulado pelos gastos supérfluos, nos shoppings perde-se a noção das horas, em uma aventura controlada, restringidas as diversidades e as diferenças sociais.

Com as liberações dos contatos pessoais e das aglomerações, largadas as máscaras e expostas as faces, voltamos a poder caminhar, voltamos a ter esperanças de viajar, de falar, de se encontrar cara a cara. Arriscarem-nos a pular os muros de nossas casas e condomínios, a se lançar, “Sem fome sem telefone, no coração do Brasil”, ultrapassando as telas virtuais, invadindo e ocupando os territórios esvaziados.

Segundo Frederic Gros, caminhar e’ estar do lado de fora, é escapar da imobilidade dos objetos, dos interiores e das paredes, é subverter “a separação entre o fora e o dentro”, como a juventude que sai de casa e rompe as regras e as ordens familiares. Caminhar ao ar livre produz lugares, revela acontecimentos, escreve Francesco Careri, institui novas relações com a mundo natural e a sociedade. A deambulação, a deriva exercida no labirinto urbano, ao deixar-se levar na cidade cindida, subverte a solidão, e’ uma experiência estética, como extraviar-se numa floresta, “é algo que se deve aprender”, ou agora, como nunca, (re)aprender.

Quer sejam as atividades ao ar livre, feitas a pé ou realizadas de bicicletas, através das explorações lentas e sensíveis, sem direções ou destinos prévios, deixando-se impactar e surpreender-se, são elas agora os momentos de retomar a alegria, disponíveis às novidades, e’ a hora de buscar atalhos, como Caetano Veloso, nos propôs, em 1967.

Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

O sol é tão bonito
Eu vou
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou

Kleber Frizzera
Fevereiro 2022

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