quinta-feira, 19 de maio de 2022
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Vitória

Emaranhado

A internet, seus inúmeros caminhos, lugares, superposições e dispersões me parecem, às vezes, como um emaranhado, quando várias linhas, em muitas cores, escapam dos seus carreteis e se enrolam indistintas.

No mundo digital, por mais que as plataformas busquem organizar a torrente inesgotável de imagens, informações e falas desarticuladas que ocupam o seu universo, um monte de lixo infinito, imaterial, derrama-se de nossas telas, esgota o pensamento e a reflexão analítica.

Vivendo na acelerada exigência da competição, já não temos a paciência e o demorado gosto de tentar achar as pontas das meadas, separar as linhas por cores, espessuras e brilhos e ao fim conseguir ordenar a multiplicidade que nos oferece o mundo.

Se, por esforço ou sorte, conseguimos descobrir, como em um quebra cabeça, em um recorte, um fragmento de uma praia, de um evento ou odor, um amor desfeito, a outra ponta escapa à sua conexão, abandonada entre tantas no cesto de costuras.

Aplicativos, como o Padlet, buscam, ao criar mesas digitais, gerar uma mesa, suporte de encontros, de forma a colocar multiplicidades díspares próximas, lado a lado, oferecendo-nos uma oportunidade de reconhecer a diversidade.

Para Georges Didi-Huberman, trata-se ao reler o mundo de “ligar diretamente os fragmentos desiguais, …meio de orientá-lo e interpretá-lo, sem acreditar resumi-lo nem esgotá-lo”.

Assim “ler o que nunca foi escrito”, se faz lançando pontes, pela imaginação, entre as realidades às mais longínquas e às mais heterogêneas, entre coisas viscerais e coisas siderais, entre troços e retalhos.

Muitos se contentam com as pequenas palavras, que sustentam no raso da linguagem, preconceitos e ódios ancestrais, que diante das multicores, acusam identidades sexuais e na presença dos amplos tons de vermelho descobrem comunistas em cada reflexo.

Impossibilitados de cortar os nós, de decifrar passados e futuros, tempos e movimentos, impotentes, voltam suas armas aos outros, diferentes.

Emaranhado

Mas para quem se oferece para (re)tecer os fios, (re)montar o mundo, a partir do emaranhado oferecido, vencer o caos, cabe inicialmente (re)pensar as práticas de observação e da coleta das amostras, operar cortes e correspondências, fazer de um improvável arranjo, a “organização do pessimismo”, segundo Walter Benjamim.

Talvez deslocadas, imagens e falas, se agrupem em constelações provisórias, que sustentem o olhar, que lançado, `a noite, à admiração da abóbada celeste, receba de espelho, a oportunidade oferecida da redenção.

Ouçamos os ventos, instáveis, os fantasmas, translúcidos, os espíritos de outras épocas, anjos que sopram asas e deslocam certezas, ouçamos as brisas que movimentam os ares e as tardes melancólicas da cidade de Vitória.

Movimentam, em roldão, restos, pedaços, escritos e falados, levantam as saias e elevam antigos chapéus, navegam no cais farejando a sacaria de café e as toras de madeira de lei extraídas da mata atlântica. Anunciam memórias e potências.

Haveria ainda tempos, lentos, para esboçar uma outra paleta, outros lugares, comuns, em torno do fogo, na roda da fortuna, mas
A quem
interessa
esse
além sem pressa

podia passar
a vida inteira
olhando a lua
a boca cheia de luz
e na cabeça nem sombra
da palavra glória.

(Paulo Leminski)

 

 

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