quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
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Vitória

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    As coisas não mais resistem aos esforços, são imagens sem peso, sem gravidade, que se deslocam pelos desejos, aplicados pelas pontas dos dedos no teclado e no recorte da tela.

    As coisas não mais exalam cheiros, não mais se dissolvem em músicas e gostos, as asperezas se alisam e os músculos não reagem em cansaço ou vitória ao percurso da caminhada.

    Isolado em estreito campo virtual, vejo amigos sem corpo e sou soterrado sob tantos dados, apelos e informações, que atraem e embotam o meu olhar.

    As grandes corporações anunciam um meta verso, onde desfeitos os estímulos físicos, o amor se faz à distância, o prazer se consome sem sabor, e viveremos em um corpo cyborg, “ um organismo dotado de partes  orgânicas e  cibernéticas, com a finalidade de melhorar suas capacidades utilizando tecnologia artificial”?

    Passamos a ser, escreve Giselle Beiguelman, “corpos informacionais que podem não só transportar dados, como também ser entendidos como um campo de digitalização de informações”, a serem extraídas, capturadas e usadas pelas novas ordens da inteligência e pelos seus algoritmos.

    O mundo determinado pelas informações e pelos dados “se torna cada vez mais intangível, nublado e espectral”, as memórias inscritas nas coisas deixam de conter valores ou sentidos, desfazem suas identidades e marcas dos tempos, substituídas pelos acúmulos imateriais e contínuos estímulos digitais. Os outros corpos tornam-se espectros, fantasmas brilhantes que intermediam, nas telas, as relações pessoais e torna-as remotas, virtuais.

    Os lugares são desenhados para serem instagramaveis, para registrar uma selfie, cenários de um tempo vazio, um tempo digital, “uma mera sequência de presentes pontuais”.

    Mas liberados das tiranias da submissão dos corpos ao trabalho presencial, repetitivo, não seriamos menos infelizes, quando mais capacitados com as novas ferramentas tecnológicas?

    A inteligência das máquinas transformará os humanos,” nos conduzirá a uma abertura, que rearticule as questões da história e da cultura e da vida”, prevê o filósofo Yuk Hui, que recusa a universalidade de uma única tecnologia e propõem uma tecnodiversidade – “uma multiplicidade de cosmotécnicas de valores, epistemologias e formas de existência”.

    A tecnodiversidade ao resistir à homogeneidade, segundo ele, investe na fragmentação do pensamento, “que permite a divergência e a diferenciação”, que sonda o passado, a singularidade do lugar e da materialidade. “A linguagem das artes se liberta dos sentidos aprisionados na linguagem comum”, fazendo que “o nada, a origem e o tao, sejam acessíveis a todos”, pela experiência do não racional e do aguçamento dos sentidos.

    O êxtase, a poesia, o sublime são as formas, meios para romper os limites, os interditos sociais e culturais, para ultrapassar o silêncio que se instala na vida comum, provocar novas relações com as tecnologias e as representações.

    Ao superar as imposições numéricas mercantis, do poder e do capital, que sustentaram e sustentam a justificativa do progresso e a destruição do planeta, as artes e a imaginação investigam o incalculável, o que sobra nos mapas, o que resta nos escritos, o que está além das molduras.

    Tudo,

    até mesmo o mais pesado, estava

    pronto para voar, nada

    retinha.

    Paul Celan

    Kleber Frizzera
    24.novembro. 2021

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