quarta-feira, 10 de agosto de 2022
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Vitória

Conjunção


No vasto mundo
As aranhas crianças se vão
Cada um segue sua sorte
Issa

As redes sociais nos deixam permanentemente conectados, atados virtualmente, online, aos próximos e aos distantes, amigos, conhecidos, desconhecidos, absorvendo aos borbotões, imensas imagens, múltiplas falas, amores e agressões. Se nos afastamos, por instantes, de nossos equipamentos, telefones, tablets, note books, se perdidas as ligações, quando uma queda da internet, rompidas as relações, vazios, solitários, nos tornamos abandonados sujeitos.
Como uma criança que afastada da mãe, se perde na multidão, como o amante, que esquecido o olhar da amada, sofre a irreparável perda, como o jogador, quando os dados se deslocam na mesa, e a sorte e a fortuna não brilham, desfeitas as redes virtuais, retornamos ao mundo vazio da angústia e do desespero.

Neste universo mosaico, como escreve V. Flusser, esgotado uma ordem geral que estruture, ordene, signifique uma totalidade, onde reestabelecer a ordem de um mundo, anteriormente repleto de fantasmas, espectros, estrangeiros e deuses?

Onde e quando, talvez o tempo, e seu eterno retorno, devolvera’ cada coisa, a casa, a origem e o destino ao seu devido lugar?

Entre o fixo, recorte da moldura, que me coloca em posição de observador, ponto de vista que descortina, em perspectiva, a hierarquia instalada de antemão, e o variável movimento, que nômade circula em altos e baixas permutações, no lento desfazimento das coisas e dos lugares, tudo se insinua e se dilui no vazio do abandono digital.
O andarilho, alegre nas mudanças e nas passagens, que olha ao redor, e ao ver aprende a ser e transformar, e aquele que aceita a terra, o lugar, sustenta a essência, e na experiência comum recolhe o fruto e a flor do conhecimento, entre o viajante e a pedra, onde reluz a conexão desfeita?

Conjunção,
A conjunção é uma operação na lógica matemática, que pode ser ligada à operação de interseção de conjuntos.
Uma operação que intersecta, superpõem duas coisas, dois seres, dois conjuntos, duas proposições verdadeiras. Operação amorosa, aproxima e comunga equivalências, une, junta, aproxima diferenças e suporta dores e afetos. E ao operar, gera outras orações, transcrições, e conjunta, amplia sentidos, compartilha e multiplica valores.
Uma conexão não e’ uma conjunção.


Para Franco Berardi, “desde que a conectividade digital substituiu a conjunção física na esfera da comunicação social, as condições psicossociais da empatia foram enfraquecidas”, contribuindo para a aniquilação e a ineficiência do juízo ético e o fim das regras, de qualquer tipo. Segundo ele, “o sentido e’ o efeito da comunicação afetiva entre os agentes de linguagem”, e quando disjuntos, os corpos se desagregam e as possibilidades de trocas significativas se dissolvem nas conexões virtuais.

Quando mais e mais somos submersos em um fluxo incomensurável de informações, irrelevantes, superficiais, banais, lançadas em fragmentos nas redes sociais e nos sítios digitais, em pânico, solitários, deixamos nos levar, insensíveis, em uma simulação virtual da vida.

Formados nesta (in)sensibilidade abstrata, em um ambiente digital, imaterial, vivemos um empobrecimento das experiências sensoriais afetivas e de nossa percepção da ambiguidade das relações conjuntivas.
Potencias explosivas aguardam nossas proximidades corporais.

Kleber Frizzera
10.08.2021

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