sexta-feira, 19 de agosto de 2022
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Vitória

A astúcia do desejo

O contorno daquilo que pela escrita da foice
silenciosamente irrompe à parte,
onde fica a neve
Paul Celan

Norman Brown, em seu livro, em 1959, A vida contra a morte, como cita Vittorio Gregotti, afirma que “a história é feita, para além de nossa vontade, não pela astúcia da razão, mas pela astúcia do desejo”, que se utiliza do projeto e da utopia, modos de antecipação do futuro, para buscar a sua satisfação.

Prever e produzir um outro fim, enfrentar os crescentes riscos ambientais que se acumulam em nosso planeta Terra e ameaçam a nossa espécie, exige um esforço particular de pensamento e ação, que não se resume a resistir a inevitabilidade da mortalidade humana, que a pandemia recente deu uma renovada e sofrida visibilidade.

Na distância temporal entre o desejo e a sua satisfação, entre a consciência da falta e a sua costura, entre as vontades e os resultados possíveis, o projeto do ambiente- urbano e privado-, é um dos locais onde se instalam as condições e disposições para um acordo provisório, de compartilhamento social, ao tornar o desejo individual um propósito coletivo, a ser feito de matéria e forma, abrigo e significado.

A pandemia do coronavírus e as ampliadas ameaças globais climáticas, nos têm imposto uma luta comum pela sobrevivência, tornada absoluta e universal, em um estado permanente de guerra, quando “a vida é despida de toda narrativa promotora de sentido”, de um sentido qualquer para se alcançar uma boa vida.

Na sociedade global do mérito e da submissão, o sofrimento global impõe a presença do outro, estrangeiro, rompe a imposto consumo dos objetos, a competição dos corpos erotizados, as experiências gourmet, instagramaveis, quando a ausência de empatia com a multidão dos homens e mulheres sem teto, drogados, miseráveis, corpos sacrificados, fez ausentar os contatos corporais, substituídos pelas imagens e mundos virtuais, imateriais, vividos em espaços cerrados ou em longínquas cápsulas espaciais.

Mas quais desejos podem ultrapassar os limites mercantis, mover as atitudes, para a humanidade, defronte às questões por ela formuladas, definir as respostas, já possíveis, em ciências e saberes, de fazer a vida boa, como propõe Aristóteles, na contemplação, na busca do conhecimento e na política, exercida na cidade, diante do outro.

Na presença do outro, demorando-se no mesmo, “a eternidade cintila como uma luz que se difunde pelo diferente”, na tarefa do belo, a arte salva e anula o poder devastador do tempo, em uma resistência ao gasto efêmero de energia do consumo e da velocidade vazia.

“Mas fica, és tão bela”, Fausto convida à demora, à contemplação da beleza, quando livres “de todo o desejo e cuidado”, suspendemos o tempo na eternidade do presente.

Mas será que simultaneamente, ao nos libertamos dos gostos imediatos, astuciosos poderemos dobrar futuros em venturosos momentos, vividos em comuns esforços de alegrias e sobrevivências?

Quando desfazemos as tessituras do poder e do dinheiro, das rudes cordas do desempenho, da coerção e do controle, encontraremos, ao tempo que resta, os lugares do possível e da redenção, da palusia final?

Kleber Frizzera
18.08.2021

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