A cidade e seus centros

 A cidade e seus centros

Avenida Jerônimo Monteiro – Centro de Vitória. Foto: Leonardo Silveira

Quereis fugir,
Ondas em pânico?
Não há onde ir.

Waldo Motta

A pandemia e suas consequências urbanas, isolamentos sociais, ampliação e manutenção de atividades de trabalho, educação e entretenimento, de forma remota e virtual, têm exposto a dispersão e especialização dos centros de atividades na metrópole, fragmentados em municípios, condomínios fechados e bairros isolados.
Se há cinquenta anos ir à cidade ainda significava se deslocar, paramentado, para o centro histórico de Vitória, que abrigava o poder estatal, a igreja e a catedral, os principais comércios e serviços, escolas, bares e cinemas, hoje, as novas gerações não precisam se mover para acessar estas atividades, e imaginam que vivem, em suas pequenas bolhas, em uma cidade completa.


A cidade moderna, principalmente após a revolução industrial, se constituiu em oposição ao mundo rural, onde a concentração de pessoas e capitais, das matrizes das empresas, bancos e das instituições culturais – museus, cinemas e teatros -, criaram uma centralidade que se manifestava na alta densidade de atividades e pessoas, em uma área concentrada de edifícios e usos. Viajar e conhecer uma cidade era conhecer o seu centro, sua riqueza, sua variedade e multiplicidade de experiências estéticas e sensoriais, admirar os seus edifícios e palácios, suas histórias e belezas.
No centro da cidade, território das sedes dos palácios de governo, legislativo e da justiça, se fazia a política no contato pessoal, na proximidade, as manifestações políticas movimentavam suas ruas e os comícios ocupavam as suas praças, desfiles cívicos e carnavalescos avançavam em suas avenidas e boêmios transitavam em suas noites, encontros amorosos se estabeleciam em seus largos.


Em Vitória, como em tantas outras cidades, o centro histórico foi sendo abandonado, pela Assembleia Legislativa e pelo Tribunal de Justiça, pelas famílias burguesas e pelos negócios do café, e escritórios, consultórios e lojas passaram a ocupar os shoppings e as ruas comerciais dos novos bairros, em Serra, Cariacica e Vila Velha.
O centro tradicional se dissolveu pela metrópole em diversos centros de compras, de serviços, de saúde e educação, de entretenimento, bares e restaurantes, parques e praias, cada um destinado a um público específico, de jovens e suas tribos, estratificados por renda, gênero, idade ou proximidades físicas. As manifestações políticas, de direita ou de esquerda se movimentam em ruas ou pontes vazias de espectadores, e são contadas e avaliadas pelas fotos nas redes sociais dos participantes, e não há mais nenhuma escadaria do palácio do inverno ou do congresso americano a escalar e conquistar.


Uma tendência mundial configura uma outra malha urbana, à maneira das redes sociais, em nós dispersos, multicêntricos, em permanentes deslocamentos, alterando os lugares em nômades imagens, antecipando um tempo quando não haverá mais centros fixos e seus edifícios históricos, hoje museus, desmancharão seus sentidos e memórias em ruinas e abandonados lugares.


Extinto o centro da cidade, edifícios, moradias e lojas vazias, tardes e noites silenciosas, onde, corpos ardentes, com nossas diferenças, paixões e contradições, nos reconheceremos, indivíduos, diante dos outros, onde ouviremos as novidades e encantamentos do mundo, e onde enfrentaremos, de peito aberto, o poder e glória?

Kleber Frizzera
Outubro 2021

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